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Bauman e o momento político brasileiro, por Marcio Valley

Texto muito bom, tratando do momento político brasileiro atual utilizando o conceito de ideologia, tal qual utilizando por Zygmunt Bauman no livro “Em busca da política”. O autor, Marcio Valley, tem um blog e publica no Jornal GGN, de Luis Nassif.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Bauman e o momento político brasileiro

Por Marcio Valley

Impressionante a capacidade analítica do saudoso Zygmunt Bauman no que concerne ao desvelamento dos mecanismos que põem o mundo em funcionamento. Seus livros trazem incontáveis lições sobre os processos de formação e desenvolvimento das interrelações sociais, principalmente os que determinam as macrorrelações, mas aqui e ali também produzindo a narrativa dos micropoderes que se digladiam no cotidiano, o campo da realidade mais próxima dos humanos.
No livro Em busca da política (1), há um capítulo especialmente interessante (2), que trata do desenvolvimento do conceito de ideologia ao longo do tempo. Há muito ensinamento, ali, cuja apreensão serve perfeitamente ao propósito de compreender o momento político vivenciado no Brasil atual.
A palavra “ideologia” embute em si mesma o significado de estudo ou ciência das ideias. De fato, nasce legitimamente com essa pretensão plenamente epistemológica, real, de organizar e fiscalizar as ideias surgidas com o timbre de “ciência”. Separar o joio do trigo, eis a pretensão científica inicial da ideologia. Com o passar do tempo, porém, o significante permaneceu o mesmo, mas o significado sucumbiu a um processo irreversível de deterioração. De serva da ciência, a palavra ideologia passou a significar justamente o oposto de saber científico: o senso comum ou, como traduzido por alguns filósofos e sociólogos, a “atitude natural” perante o mundo. Os ideólogos perceberam o potencial do novo saber para o direcionamento da vontade popular e, de fiscais das ideias, passaram à condição de seus autores. Conspurcaram, viciaram, a noção de ideologia, pondo-a a serviço dos interesses de dominação. Marx foi um dos primeiros pensadores a utilizar o termo já nessa acepção viciada, quando a utiliza como título em A ideologia alemã.

Senso comum ou atitude natural significa, no dizer de Bauman, que faz remissão ao filósofo Edmund Husserl, “esse caldo de cultura para opiniões tolas e infundadas que se disfarçam de conhecimento verdadeiro”. Segundo Bauman, Husserl acreditava que somente através da “redução fenomenológica”, seria possível alcançar a visão da realidade “real”, ou seja, a realidade despida das diversas camadas de erro que turvam a visão da pessoa comum. Em outras palavras: tire toda a grossa capa suja de senso comum que reveste a realidade e eis que ela surgirá nua e crua, como é verdadeiramente. A capacidade de lapidar o diamante bruto recém extraído da mina do real, contudo, infelizmente, não se encontra ao alcance dos mineiros. Há uma proposital limitação cognitiva que os impede de produzir a joia oriunda do produto do próprio trabalho. Isso os coloca na condição de alvos fáceis da manipulação ideológica. Sem lapidação, o diamante é pouco mais do que uma pedra.
Embora o senso comum, ou atitude natural, em virtude de seus evidentes (para quem os enxerga) equívocos e contradições, tenha validade no tempo e no espaço, sendo superado, em algum momento, pela narrativa histórica a ser contada no futuro, o fato é que, no presente, a ausência de inteligência no debate público, degenerada que é pela ideologia dominante (rectius: senso comum que prepondera na atitude política das pessoas), dificulta enormemente o caminhar da humanidade em direção aos avanços civilizatórios que nos tornaria, efetivamente, uma espécie diferenciada em razão da inteligência. Nesse sentido, pode-se afirmar que é a primazia do senso comum sobre a inteligência crítica que ainda mantém uma porção significativa da população humana na condição de animais irracionais.
É claro que o discurso hegemônico não surge com a criação da ideologia. Ele já existia, disseminado através das religiões e, posteriormente, daquilo que se entendia como ciência. O que Bauman pretende ressaltar, creio, é como o poder é capaz de deturpar todo e qualquer conhecimento humano para transformá-lo em ferramenta útil para se perpetuar na dominância.
Quem é o autor e como se produz e reproduz o discurso ideológico hegemônico? A resposta é óbvia: siga o dinheiro, estúpido! A ideologia dominante deve produzir um mundo no qual a manutenção da ordem e a vontade de progresso sejam o padrão dominante de comportamento.
A manutenção da ordem deve ser entendida como a submissão ao ordenamento legal ainda que ao custo da fome e da própria vida. Rebeliões por insatisfação com a renda ou com as condições materiais de existência, mesmo as realizadas por populações incontroversamente miseráveis, deve ser vista pelo restante da população como coisa de baderneiros, terroristas e vândalos. Decisões públicas amargas, capazes de conduzir a miséria a níveis inimagináveis, devem ser percebidas pela maioria da população como dolorosas, porém inevitáveis.
A vontade de progresso, por sua vez, serve para incutir na maioria da população a ideia de que o ser humano é o senhor do planeta, cujas riquezas naturais existem exclusivamente para a sua satisfação, e que todos são potencialmente empreendedores capazes de enriquecer indefinidamente, de modo que o respeito ao patrimônio alheio atual significa o respeito ao patrimônio próprio no futuro.
É assim, basicamente, que as duas ideias hegemônicas garantem o mundo tal e qual ele se apresenta: através do paroxismo dos conceitos de ordem e de progresso.
Quem produz o discurso hegemônico, e o reproduz, é quem dele se beneficia: a elite. Embora dele se beneficiem, e ajudem a reproduzir, a elite, nesse caso, não é representada pela classe média ou pela pequena burguesia, os pouco ricos. A elite capaz de direcionar a ideologia é formada pelos muito ricos. Somente a classe rica é capaz de financiar a produção de pensamento e sua disseminação global. Não está ao alcance de “riquinhos” custear a ciência econômica produzida em universidades de prestígio mundial, que produzirão o material científico pleno de jargões obscuros propositais, pois úteis à finalidade de permitir a interpretação subjacente ao senso comum econômico que será repetido nauseantemente pelos pseudo-sábios econômicos empregados pela grande mídia e acabará por ser agregado inclusive pelas academias de menor prestígio, cujos “cientistas”, assim, se colocam na condição de simples “mineradores” do conhecimento, incapazes, como qualquer um do povo, de lapidar o diamente que extraem da rocha com a própria picareta.
E é isso que assistimos no Brasil atual. Um apego tão elevado, irracional, a uma noção supostamente ética de combate a um dano social verdadeiro – a corrupção – que autoriza a destruição de outros elementos tão ou mais importantes socialmente, a saber, o respeito à democracia, a supremacia dos direitos e liberdades individuais em face do poder coercitivo do Estado e a valorização do trabalho e do trabalhador, dentre outros.
A responsável pela disseminação da ideia daninha de que o combate à corrupção deve ser feita “custe o que custar” é a ideologia dominante, que já nos forçara o pensamento idêntico de que o combate às drogas deve ser levado às últimas consequências, pouco importando a avaliação da dimensão dos prejuízos sociais colaterais que isso provocar. Tal pensamento, em última análise, permite supor o massacre de populações inteiras, desde que justificada por uma combate “ético” apelativo qualquer, desde a imposição de um regime “democrático” à força, como em nome da “autodeterminação” dos povos que serão massacrados, sem opção, pela guerra que os libertará. Tudo isso é naturalizado, pela população, por conta de estarem “zumbificados” pelo discurso hegemônico. O horror, nesse caso, passa a não mais horrorizar.
O “embate” entre um juiz visto como herói nacional e um cidadão acusado sem provas, cuja ausência de provas é vista como comprovação de culpa, sinaliza com bastante preocupação para o ponto a que chega a irracionalidade provocada pela ideologia. Não se percebe que o massacre kafkaniano hoje é contra quem odeio, mas amanhã será contra quem amo. A alteridade morre e de suas cinzas nasce a arbitrariedade e o despotismo.
A ideologia dominante é capaz de transformar heróis em inimigos públicos, golpistas e ditadores em democratas e inquisidores em juízes imparciais. A resistência civil à indignidade se torna vandalismo e terrorismo. A covardia institucional, capaz de matar com bala de borracha disparada à queima-roupa e quebrar cassetete na cabeça de manifestante, é comemorada como cumprimento estrito do dever. A pusilanimidade moral de autoridades que deveriam zelar pela paz social, mas se acovardam ante a grita pseudomoral dos que tem voz, é vista como sabedoria.
É ela, também, a ideologia, que permite a imposição de quatorze anos de trabalhados forçados para toda a população, sem sequer arranhar os interesses dos ricos, sem que isso cause uma convulsão social. Autoriza o corte de direitos trabalhistas históricos, absolutamente consagrados, como a vedação à terceirização da atividade-fim, sem que sobrevenha uma greve geral por tempo indeterminado. Determina a mitigação ou extinção de direitos vinculados ao estador de bem-estar social, criados como mecanismo de redução das desigualdades e auxiliares no combate ao crime vinculado ao desespero existencial de subsistência, não somente sem resistência da população, mas sob seus aplausos.
Tudo porque é sonegado à população o conhecimento verdadeiro sobre as relações de causa e efeito que permeiam as interrelações sociais através do mecanismo de criação e disseminação da ideologia favorável à dominação, que inverte completamente a verdadeira inteligência sobre a sociedade e seus meandros. O que é ruim, passa a ser bom, e o que é bom, torna-se péssimo.
O intuito final é que passe despecerbido que os recursos são escassos, muito escassos, num planeta de riquezas finitas, e que, embora escassos pela própria finitude, tornam-se desesperadoramente ainda mais escassos pela apropriação irracional da maior parte da riqueza por uma porção muito pequena, quase insignificante, de pessoas no mundo.
Aqui no Brasil, o discurso hegemônico transformou a operação Lava Jato em episódio salutar de depuração ética, quando, na verdade, é meramente um instrumento útil na luta ferrenha pelos recursos escassos. Seu papel não é de defesa dos interesses populares, como pensam os inocentes úteis que a defendem com ardor, mas de fazer cessar a transferência de parte dos recursos escassos – pequena, mas importante – que vinha sendo direcionada para o andar de baixo. A pretensão é de que esses recursos escassos, por pouco que sejam, continuem a jorrar somente na bolsa dos poderosos, que sequer são brasileiros.
Esse é o gigantesco poder do discurso hegemônico: criar, na mente dos incautos, um inimigo imaginário cuja guerra contra sirva de distração para o diabo prosseguir – sem ser notado – no seu trabalho de coletar almas inocentes e ingênuas.
Um dia, nossos netos terão acesso à História e conhecerão a verdadeira história desse período. Isso já ocorreu, por exemplo, em relação à Inquisição ou ao nazismo que, em suas respectivas épocas, eram considerados pelo senso comum, pela maioria, portanto, como atos legítimos e salutares para a sociedade. Hoje, sabemos o quanto seus defensores foram ignorantes, tolos e enganados.
O que nossos netos não saberão dimensionar é a participação dos próprios avós nas agruras que sofrerão. A tolice, a ingenuidade e a insensatez atuais serão ocultadas pelo véu da ignorância que o tempo sempre produz em relação às massas.
Para quem, hoje, apoia de forma incondicional operações governamentais como a Lava Jato e as decisões de tribunais superiores que lhes conferem legitimidade, resta ao menos o conforto de saber que sua burrice será apagada pelo tempo. O que não será apagado, nem agora, nem no futuro, serão os efeitos sociais daninhos de sua escolha. O próprio apoiador sofrerá em curto prazo com o desemprego e aposentadoria tardia. Em médio prazo, seus filhos e netos também sofrerão com o estabelecimento de uma cultura de servidão e menosprezo pelo trabalho e pela dignidade humana.
A corrupção é um mal a ser combatido na sociedade como outro qualquer, como o homicídio, o estupro e os preconceitos. Nenhum mal justifica um combate “a qualquer preço”, pois isso, em si mesmo, é um outro mal. Todo mal deve ser combatido com as armas da justiça e da equidade, acima, inclusive, da mera legalidade. A dignidade humana deve ser preservada acima de qualquer outro interesse, inclusive os mesquinhos interesses desse ente sobrenatural chamado “mercado”.
O verdadeiro custo da aceitação passiva do discurso hegemônico é a abdicação da humanidade e sua incrível capacidade de perceber o mundo tal como ele é. Quem adere cegamente à realidade virtual disseminada pela grande mídia, pela indústria cultural, torna-se, apenas, um bovino a mais no grande rebanho criado para o abate pela elite.
Ser humano, inteligente, ou uma cabeça de gado, sem discernimento? Eis a encruzilhada na qual somos colocados pelo atual embate “ético” travado no país.
Todos nascemos e morreremos um dia com a aparência humana. São as escolhas que fazemos, em suma, é como vivemos que nos alça à condição verdadeiramente humana inteligente e racional ou nos mantém na animalidade irracional. Assim, é preferível optar pela dignidade humana, de forma contramajoritária, e tornar-se um pária na sociedade, do que aderir ao discurso fácil da pseudomoralidade e compactuar com a iniquidade.
A escolha parece fácil, mas, infelizmente, não é.
1 – BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política, Zahar, 2000.
2 – Idem, “Digressão 1: Ideologia no mundo pós-moderno”, pág. 114.

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Entrevista com Alain Badiou: a clareza de um pensador sobre o tempo presente

Reproduzo aqui, pela relevância, a entrevista com o Prof. Alain Badiou, não a toa orientador de Slavoj Zizek.

Ele discorre sobre a geopolítica do mundo atual, sobre os processos eleitorais, sobre a polarização entre esquerda e direita nas democracias ociedentais, sobre a ascensão de discursos fascistas em momentos de crise, sob o beneplácito do capital e sobre sua proposta de manutenção de uma hipótese comunista como horizonte para as lutas necessárias dos excluídos por uma nova sociedade. Enfim, leitura necessária e tudo isso com a clareza de um pensador de 80 anos.

Título Original:

Geopolítica atual lembra véspera da Primeira Guerra Mundial, diz filósofo

FERNANDO EICHENBERG
ilustração DECO FARKAS

Folha de São Paulo, 16/04/2017 02h00

RESUMO Um dos filósofos mais importantes da atualidade compara a geopolítica contemporânea à situação da véspera da Primeira Guerra Mundial, explica por que discursos autoritários e nacionalistas se beneficiam das crises da democracia, analisa as semelhanças entre direita e esquerda e fala sobre sua hipótese comunista.

O filósofo, romancista e dramaturgo Alain Badiou, 80, um dos intelectuais mais importantes da França, compara a atual situação geopolítica à que antecedeu a Primeira Guerra Mundial (1914-18).

Para ele, a eleição de Donald Trump, nos EUA, é um caso patológico, enquanto o presidente Vladimir Putin, da Rússia, busca vingança pelo desmonte da União Soviética e leva seu país ao mesmo papel da Alemanha em 1914.

Badiou chama a atenção para a crise da democracia e para o clima de desorientação global, que podem favorecer regimes autoritários e reforçar discursos nacionalistas e populistas –situação que também afeta a França, onde Marine Le Pen, candidata de extrema direita, tem boas chances de ir para o segundo turno da eleição presidencial. A primeira rodada de votação acontece em 23 de abril.

Conhecido pelos concorridos seminários públicos que comanda desde 1966, ele analisa a ideia de que direita e esquerda são cada vez mais iguais e defende com rara convicção uma nova hipótese comunista, dissociada das experiências totalitárias do passado.

Em seus livros, reflete sobre o amor, a poesia, a matemática, a juventude, a política ou as dores e as crises do mundo. Como professor, orientou o filósofo esloveno Slavoj Zizek e Vladimir Safatle, que leciona filosofia na USP e é colunista deste jornal. Como dramaturgo, trabalhou com Antoine Vitez (1952-90) e Christian Schiaretti, entre outros diretores.

Badiou conversou com a Folha na capital francesa antes de os Estados Unidos lançarem 59 mísseis Tomahawks contra uma base aérea da Síria, em reação ao alegado uso de armas químicas por parte do ditador Bashar al-Assad.

*

Folha – Qual é a natureza da atual crise da democracia?

Alain Badiou – O regime democrático está em crise por não poder fazer crer que aceita hipóteses contrárias. O capitalismo se apresenta como hipótese única depois que a experiência comunista fracassou, e há uma tendência à ideia de que a representação política pode ser mais ou menos unificada. Todo mundo diz que é preciso superar a oposição entre esquerda e direita.

Na França, [o centrista] Emmanuel Macron [ex-ministro da Economia do socialista François Hollande e um dos líderes em pesquisas de intenção de voto para presidente] se apresenta como conciliador.

Pode ser que caminhemos para um partido único versão capitalista. O regime parlamentar supunha um tipo de tensão contraditória de políticas, mesmo que artificial. Havia a necessidade de uma diferença visível entre direita e esquerda. Hoje, a esquerda eleitoral, excluída a extrema esquerda, não é muito diferente estrategicamente do que fazem os demais. Isso cria a hipótese de enfraquecimento crescente do aspecto legível da democracia.

Ela está em crise, mesmo nos EUA. A eleição de Donald Trump foi algo um pouco patológico. E, na Europa, espalha-se a força de partidos autoritários, nacionalistas.

A democracia como regime apropriado ao desenvolvimento do capitalismo ordinário está em crise, e disso tudo podem surgir organizações políticas estritamente dedicadas à gestão do Estado. Organizações um pouco neutras, ligadas de modo explícito ao grande capital.

Para o senhor, a pluralidade política ou a diferença entre direita e esquerda não passa de ficção.

É uma ficção. Mas só funciona enquanto se acreditar que não é ficção. Hoje, à força de vermos governos de esquerda fazerem mais ou menos o mesmo que os de direita, a ficção não se sustenta mais. Por isso aparecem pessoas que dizem: “Não é preciso ter esquerda e direita, eu represento as duas, sou ao mesmo tempo pelo rigor econômico e pela justiça social”.

Há forte crescimento de discursos nacionalistas, xenófobos, racistas. Por que os períodos de crise, como foi o caso nos anos 1930, favorecem a direita dura, e não a esquerda?

Em crises sistêmicas médias, se os partidos estão habituados à ficção de que falei, eles deixarão seu lugar àqueles que sempre criticaram essa ficção. Os partidos fascistas e nacionalistas sempre criticaram a ficção e sempre disseram que somente eles representavam a vontade popular, a nação etc.

Eles propuseram ao capitalismo outra doutrina. Nos regimes fascistas, os capitalistas continuaram à vontade. A ficção do jogo democrático entre esquerda e direita foi substituída pela ficção da independência nacional do capital a serviço da grandeza da nação, da raça etc.

O capitalismo é polimorfo. Em períodos de desenvolvimento concorrencial simples, valem o parlamentarismo e a ficção direita-esquerda. Mas, quando sua capacidade de fazer redistribuição é diminuída, quando há menos dinheiro, ele é mais avaro, prioriza os capitalistas e prefere protocolos de autoridade. É o que se passa hoje.

Em períodos de crise, a ficção direita-esquerda desmorona, e as forças autoritárias levam a melhor. É preciso que o Estado mantenha a disciplina. O capitalismo precisa mais do que nunca que a polícia controle greves, que as pessoas possam trabalhar e que os desempregados se mantenham tranquilos.

Até hoje, os Estados autoritários não puderam se assumir plenamente como capitalistas. Eles necessitam de uma ideia intermediária. E a ficção fascista é a ideia nacional, racial, xenófoba etc. A ideia de que, se tudo vai mal, não é culpa do capitalismo, mas dos metecos, dos judeus, dos negros, dos árabes.

Por que é o regime autoritário que vence nesses momentos? Porque ele é sustentado pelo verdadeiro mestre, pelos dirigentes reais. Eles se lembram de que, na Comuna de Paris, na Revolução Russa, na China, grandes crises provocaram vitórias comunistas. Por isso, vão se proteger apoiando e financiando regimes que podem ser militares ou de partidos fascistas.

Estamos ameaçados por isso, e tudo vai depender do tamanho da crise. De qualquer forma, esta crise enfraqueceu muito a ficção direita-esquerda. No fim das contas, penso que entraremos em um período de redistribuição geral ideológica e política. Veja o espetáculo da eleição presidencial francesa.

Qual sua visão sobre a disputa presidencial na França?

Analiso o regime parlamentar como um regime que enquadra quatro orientações, e não duas.

Há as orientações conservadora e reformista, fundamentalmente de acordo quanto ao essencial, o sistema capitalista como via única etc. Os conservadores são mais levados a manter a disciplina da tradição, e os reformistas são mais ligados à ideia da necessidade de certas reformas sociais. Não há muita diferença entre os dois, e em alguns países eles governam juntos.

Em cada um dos lados, encontramos polaridades mais contraditórias. A extrema direita assume abertamente um princípio identitário forte, nacional ou racial. Na extrema esquerda, há certa ideia de que é preciso permanecer fora da cumplicidade evidente entre direita e esquerda tradicionais.

O período de crise aparece quando o jogo central entre forças conservadoras e reformistas está desregulado, e as alas extremas se reforçam de forma muito desigual. Por vezes, para o lado da extrema esquerda, e com mais frequência para o da direita nacionalista.

Analiso as eleições francesas nesse contexto. Nota-se grande crise dos dois organismos centrais, o partido conservador Os Republicanos e o Partido Socialista [PS].

Os Republicanos nomearam um candidato de sua ala mais à direita, François Fillon. O PS tem um candidato da ala mais à esquerda, Benoît Hamon. O partido propriamente antissistema, a Frente Nacional (FN, de extrema direita), de Marine Le Pen, está em posição de força.

Não se tem ideia do que vai acontecer. O dado atual é o surgimento, no meio, de uma tentativa interna do centro, mas que diz: “Terminemos com a ficção, porque não funciona mais; quero ser o representante do bloco central, sem divisão entre conservadorismo e reformismo, eu sou os dois”. É Emmanuel Macron, que se diz conservador reformista ou reformador conservador. A ficção direita-esquerda está tão doente que aquele que a representa a declara superada.

Aparentemente, Macron é apoiado por grande parte do capital dominante do país. Dirigentes de grandes empresas são favoráveis a sua candidatura porque sabem que terão paz com ele no poder.

Como o senhor analisa a vitória de Donald Trump nos EUA?

É uma vitória que eu chamaria de niilista. É o preço pago pela desindustrialização violenta dos EUA. As produções foram deslocadas para a China, o Camboja… Exatamente como em certas regiões da França. A primeira vitória de Trump ocorreu nas primárias republicanas, com um discurso populista. Ele prometeu expulsar os mexicanos, criar empregos, repatriar fábricas.

Na França, desempregados de áreas industriais foram do voto comunista ao voto na Frente Nacional.

A eleição de Trump indica que a desindustrialização, o puro financiamento do capitalismo das grandes metrópoles, cria uma clientela disponível para as hipóteses fascistas. Sobretudo porque nada está previsto contra isso. Só há Le Pen e Trump para dizer essas coisas que, afinal, eles não cumprirão.

Ninguém acredita que os EUA voltarão a ser o grande país industrial do passado. Ou então será instalado um verdadeiro protecionismo, que conduzirá à guerra. A eleição de Trump é um sinal de que há uma doença.

Vladimir Putin encarnou certa liderança nesse crescimento de forças populistas. Como o senhor vê isso?

Eu comparo a situação contemporânea ao momento de véspera da Primeira Guerra Mundial. Havia duas grandes potências, a França e a Inglaterra, que partilharam o mundo entre si. Havia um terceiro elemento, que estava insatisfeito por não ter seu império colonial: a Alemanha. E havia a Rússia, vasta potência com interesses na Europa central. A guerra eclodiu pois não se encontrou solução equilibrada.

Hoje há uma bipolaridade crescente China-EUA. Há uma Europa em declínio. E a Rússia, assim como em 1914, faz valer suas intenções com um Estado autoritário que conta com o apoio da população.

Putin é um chefe de Estado nacionalista que busca vingança pelo desmantelamento da União Soviética. Na minha opinião, ele encarna o papel dos alemães na guerra de 1914.

Desta vez, temos uma partida de quatro jogadores (EUA, Europa, Rússia e China) em uma combinação instável. Há a intervenção no conflito do Oriente Médio, como antes de 1914 havia a intervenção nos Bálcãs. Não sou muito otimista do que vai sair de tudo isso.

O sr. diz que a violência terrorista vem da destruição de três importantes Estados do mundo árabe-muçulmano (Iraque, Líbia e Síria) e da intervenção militar direta ou indireta dos ocidentais em países da Ásia e da África.

Vem da destruição dos Estados na região e, nos países ocidentais, da frustração e do niilismo de uma parte da juventude, representante da terceira geração de imigrantes. Eles não se sentem verdadeiramente franceses [ou europeus] nem integrados, há o desemprego.

E não se insiste o bastante no fato de que esses jovens se suicidam nos atentados. Para ter jovens assim, é preciso que estejam em um determinado estado de pulsão de morte e desesperança. E essa desesperança não vem do islã. Eles estão desorientados no sentido mais amplo. Algo semelhante ocorre quando se pergunta por que os operários do norte votam em Le Pen.

O senhor diz que a resistência de hoje, por meio de manifestações, protestos, petições, faz parte da “inexistência política”. As mobilizações no Cairo ou em Paris não seriam muito diferentes do Maio de 68 pela “linguagem pobre e sem unidade”, em movimentos que se impõem pela negação, e não pela afirmação de uma ideia. Houve o “Fora Mubarak”, no Egito, hoje temos “Fora Temer”, no Brasil.

Primeiro, de um ponto de vista abstrato e geral, é melhor que existam movimentos desse tipo do que não haver nada. Em segundo lugar, penso que o que conta na política é a afirmação. É algo quase filosófico.

A negação sozinha é criadora? Não é completamente verdadeiro que a destruição porta a construção. Claro que a negação é necessária, mas é a afirmação que deve comandá-la, não o contrário.

Noto que, nesses movimentos, o elemento afirmativo é pobre. Não há ideia. Nuit Debout [protesto contra a legislação trabalhista no ano passado, em Paris] foi o último deles, e o mais medíocre se comparado à praça Tahrir, aos movimentos na Tunísia ou aos protestos em Hong Kong. Era muito palavrório.

A luta contra a nova legislação trabalhista também foi negativa, não trazia nenhuma visão diferente do trabalho etc. Sem uma lógica importante da afirmação, só sobram coisas precárias e derrotadas.

O que o senhor pensa das iniciativas do Podemos, na Espanha, e do Syriza, na Grécia?

O Syriza capitulou, e não acredito que vá se reerguer. O caso do Podemos é mais complicado. Eles estão divididos. Uma parte deseja entrar no governo, outra pensa que, se isso ocorrer, eles não permanecerão Podemos por muito tempo. É um movimento simpático, mas não tenho muita esperança neles.

Na sua análise, há 30 anos vivemos um “tempo desorientado”, de ilegibilidade do período precedente. Como é esta época de contrarrevolução econômica, política e ideológica em que estamos, segundo suas palavras?

Há provavelmente três aspectos. O primeiro é o fracasso e o fim das iniciativas que visavam construir Estados sob bases completamente diferentes do capitalismo. Houve a derrocada dos Estados que se proclamavam socialistas, Rússia, China etc. É um elemento que encerra um período histórico no qual se podia crer que outro período histórico poderia surgir.

O segundo ponto é que o balanço desse fracasso foi deixado ao inimigo, à crítica reacionária. Essa época não foi compreendida; foi condenada e praticamente suprimida da história. O fracasso foi adicionado de uma derrota ideológica. Isso levou a uma desmoralização do campo revolucionário tal qual existia desde o século 19.

E a terceira razão é que o capitalismo acelerou sua transformação expansiva, realmente se globalizou. E [o fez] consciente de que, não tendo adversário, poderia retornar a sua antiga forma: o liberalismo. Fala-se de neoliberalismo, mas há muito pouco de “neo”. Houve uma nova energia conquistadora.

O espectro do comunismo estava morto, não assombrava mais. Essa desorientação é articulada a partir de uma derrota histórica, e a expansão da visão liberal teve via livre e uma violência particular.

Nesse contexto, encontrar outro caminho, uma orientação estável, uma força coletiva, tornou-se difícil, mas é o que é preciso fazer.

Como seria a “hipótese comunista” que o sr. defende, a invenção de uma modernidade não capitalista?

Se quisermos entender o problema do comunismo hoje, é preciso retraçar a sua história. São duas etapas bastante diferentes.

Houve a invenção da hipótese comunista, de sua criação, Marx e o Manifesto do Partido Comunista, essencialmente no século 19. Era uma ideia consolidada e que começava a se organizar em partidos.

A segunda etapa começa com a Revolução Russa, de 1917. Foi a primeira experimentação histórica da ideia e a primeira tentativa de construir uma sociedade que não se basearia na propriedade privada. Mas foi uma experimentação fracassada. Na minha opinião, porque sua organização se fundiu ao Estado. A ideia comunista foi engolida e devorada pelo poder.

Hoje, ou abandonamos a ideia, ou a fazemos entrar em sua terceira etapa. É uma escolha histórica. Eu proponho manter a ideia.

Qual seria a ideia?

O retorno aos princípios fundamentais do comunismo, ou seja, à ideia de romper com a organização da sociedade em torno da propriedade privada e de acabar com as modalidades de divisão do trabalho. Retornar também à ideia de que a organização, qual seja ela, não se funde ao Estado. Precisa ser uma mediação entre a população e o Estado. Sem isso, tem-se uma construção estatal monstruosa.

É preciso sublinhar que o fracasso da experiência comunista não se deu por uma oposição, ela se decompôs em seu interior.

Qual seria a nova forma da organização adequada a esta nova etapa?

Sabemos que não será o partido leninista. Sinto, hoje, uma tentação de retorno ao anarquismo –estamos de novo na discussão entre Marx e Bakunin–, na ideia de que só importa o movimento.

Não devemos ceder a essa tentação, achando que se desvencilhando do Estado tudo ficará bem, mas ter uma proposição nova e inventiva sobre a organização moderna do comunismo. A fusão do partido com o Estado representou o retorno a uma concepção tradicional do poder político. Se quisermos liberar a política comunista desse fracasso, devemos inventar uma forma de organização diferente da que é obcecada pela questão do poder.

Como o sr. vê as tentativas de procurar vias alternativas dentro do sistema capitalista, como produtores organizados em cooperativas?

Essas experiências podem originar ideias a serem integradas em um novo comunismo. De certa forma, a ideia comunitária sempre acompanhou a hipótese comunista, era a relação entre comunismo científico e utópico, por exemplo. Sou a favor da circulação entre os dois. Mas são experiências destinadas a permanecerem locais. Sair do sistema não basta, em algum momento será necessário quebrá-lo.

*Por que o senhor aprecia especialmente o filósofo grego Platão

Por um conjunto de razões. A primeira, e pela qual ele é muitas vezes criticado, é porque fez a primeira crítica séria da democracia.

Se olharmos de perto, é uma crítica contemporânea. Ele explica que a democracia é agradável, cada um faz o que quer e o que conta são os desejos individuais e o dinheiro. E conclui que a democracia é onde se pode viver sem ideias. Mas ele pensa que viver sem ideias não é bom. Eu concordo: uma vida é mais feliz com ideias do que sem elas.

A segunda razão é por sua intuição de que viver com uma boa ideia supunha o comunismo. Sim, ele reservou o comunismo aos dirigentes. Ele paga o preço de viver na Antiguidade. Mas, no comunismo dos dirigentes, não há propriedade privada, preocupa-se prioritariamente com o bem comum. E chega até a dizer que é preciso a igualdade entre homens e mulheres, o que é muito raro para a época.

Por fim, ele mostra que a chave é a afirmação, não a negação; e que a afirmação circula pela discussão. Por isso deu à sua filosofia a forma de diálogos. Ele mostra que, para partilhar a ideia afirmativa, a única solução é encontrar as pessoas.

DECO FARKAS, 31, é artista visual e ilustrador

FERNANDO EICHENBERG, é jornalista em Paris e autor de “Entre Aspas: Vol. 2” (L&PM)

Fonte: Folha de São Paulo, 16/04/2017.

Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/04/1875585-geopolitica-atual-lembra-vespera-da-primeira-guerra-mundial-diz-filosofo.shtml

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O filósofo, romancista e dramaturgo Alain Badiou (Foto de Fernando Eichenberg/Folhapress)

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Lugar de fala e lugar de dor, por Márcia Tiburi

Artigo de Márcia Tiburi, na Revista Cult, fundamental para entendermos a proposta do humanismo e da inclusão de todos na sociedade, uma sociedade verdadeiramente democrática e não autoritária e discriminatória.

É preciso reconhecer o papel das chamadas “minorias” enquanto minorias políticas, pois no frigir dos ovos as chamadas minorias são, na verdade, as grandes maiorias silenciosas e discriminadas.

Também saber por que e como rechaçar as falas autoritárias: “O lugar de fala é fundamental para expressar a singularidade e o direito de existir. Deturpado, ele também é reivindicado por muitos cidadãos autoritários que reivindicam expressar preconceitos e, em sua visão deturpada, o fazem democraticamente. Esquecem que o que destrói a democracia não é democrático, mas isso é outro problema (grifo nosso)”

Enfim, vários elementos para reflexão nesses tempos de vários autoritarismos.

Lugar de fala e lugar de dor

O lugar de fala é o lugar democrático em relação ao qual precisamos de diálogo, sob pena de comprometer a luta

 

Para Tainá Reis e Vilma Piedade, companheiras de muitas lutas que me fazem pensar todo dia mais e mais

 As chamadas minorias alcançaram seu lugar no cenário político por meio da afirmação da identidade. É importante sublinhar que o termo minoria em seu uso isolado perde sua conotação fundamental, por isso, não apenas por dever didático, é que devemos sempre falar em minorias políticas.

Não poderia deixar de ser assim, a participação política implica a entrada do corpo marcado no lugar que o poder reservou para si contra os corpos, aquele lugar onde o poder se exerce para dominar o outro, para subjugar, para submeter, transformando cada um em objeto: o trabalhador no capitalismo, a mulher no patriarcado, o negro na raça, as formas de sexualidades no regime do contrato heteronormativo. A consciência disso levou a um ato de contramarcação politicamente produtivo: hoje as mulheres se auto-afirmam como categoria política, bem como as mulheres negras, os negros, os gays, as lésbicas, os surdos-mudos, os quilombolas, os moradores de rua, os sem-terra, os indígenas e assim por diante, sempre tendo em vista a reivindicação de um direito.

Só se entra na esfera política quando se quebra a blindagem do poder. Essa entrada é ela mesma já parte da luta política, seu momento originário a ser sempre reafirmado. No entanto, não se pode perder de vista que o conceito de identidade que hoje em dia é usado e ressignificado em sentido libertário, é originalmente opressivo. De nada vale senão como forma de quebrar a hegemonia do poder de uma identidade sobre as outras. Em uma sociedade que estivesse para além do poder, não usaríamos esse conceito tranquilamente.

A identidade é em seu uso no contexto das lutas políticas, uma força de alto impacto potencial. Quando nos afirmamos como mulheres, ou como mulheres negras, ou como mulheres negras lésbicas, ou como mulheres negras lésbicas muçulmanas, ou como mulheres negras lésbicas muçulmanas e brasileiras, nos tornamos mais potentes politicamente. Mas não devemos perder de vista o sério risco da fragmentação da luta que destrói a luta. Por fim, quando alcançamos a identidade mais pura, encontramos a condição do indivíduo isolado, único em sua diferença. É isso que nos faz pensar também no perigo de um conceito muito bonito atualmente usado, mas que se torna ingênuo quando perdemos de vista a sua origem no individualismo burguês: refiro-me ao conceito de singularidade que não deve ser elogiado sem a mediação da crítica.

Talvez seja desnecessário lembrar que a identidade é histórica, que não é natural. Mas atualmente devemos ser sempre didáticos quando falamos de questões do campo ético-político. O exemplo dos povos que habitam há milênios e séculos a terra hoje em dia chamada de Brasil deve sempre ser lembrado. Eles mesmos não chamavam a si mesmos de índios e só o fazem hoje em um esforço de conversar com esse outro que são os não-índios. Sabemos além disso que o nome mulher, bem como o nome feminismo, tem uma etimologia de assustar. Que o nome “negro” também não foi escolhido pelos povos africanos. Por isso mesmo, a auto-marcação é política e não um ato de consolo ou compensação. Esses termos só tem sentido quando são usados com uma função prática e política.

Lugar de fala e lugar da dor

Um xamã ou cacique, embora tenha um nome próprio, ao falar com os brancos fala de si como “índio” porque quer se fazer entender pelos não-índios. Assim as mulheres e as feministas que já desconstruíram o natural, também falam de si com intenção política, e também didática, de fazer o outro entender. Foi a partir daí que se começou a sustentar a ideia de um lugar de fala atualmente em voga na vida contemporânea. Ora, uma característica de nossa época é a sustentação da singularidade, a forma subjetiva que expressa a existência de cada um como um ser de diferença. Por meio da singularidade fica claro que cada um quer conquistar um lugar. Esse lugar tornou-se, pela auto-afirmação da singularidade que se expressa, um lugar de fala.

Os filósofos que escreveram confissões, as pensadoras que levantaram questões sobre os direitos das mulheres, muito antes de dispormos do nome feminismo, ocuparam o lugar metodológico da fala. Até mesmo Descartes ao escrever “penso, logo existo”, fez uso de um lugar de fala. O lugar de fala é fundamental para expressar a singularidade e o direito de existir. Deturpado, ele também é reivindicado por muitos cidadãos autoritários que reivindicam expressar preconceitos e, em sua visão deturpada, o fazem democraticamente. Esquecem que o que destrói a democracia não é democrático, mas isso é outro problema.

Quando pensamos no lugar de fala do autoritário, vemos que esse lugar é realmente complexo. Se confundimos o lugar de fala com a expressão de uma verdade pessoal à qual não deveríamos reduzir a singularidade, sempre podemos usá-lo para fins autoritários. Por meio dele, podemos interromper a luta como um fascista o faz.

Não é possível falar do lugar de fala sem pressupor o diálogo enquanto reconhecimento do outro. Por isso é que se torna necessário separar o lugar de fala do lugar da dor. O lugar da dor é de cada um e em relação a ele só podemos ter escuta. Já o lugar de fala é o lugar democrático em relação ao qual precisamos de diálogo, sob pena de comprometer a luta.

Às vezes um lugar de fala pode ser um lugar de dor, às vezes um lugar de dor pode ser um lugar de fala. Se o lugar de fala é abstrato e silencia o outro onde deveria haver um diálogo, então ele já não é mais um lugar político, mas um lugar autoritário que destrói a política no sentido das relações humanas que visam o convívio e a melhoria das condições da vida em sociedade.

Talvez até agora não tenhamos avaliado uma questão, a de que a marcação implica uma dor. Aquele que é marcado como minoria, carrega a sua dor e toda dor deve ser respeitada. Mas para que o lugar da dor se torne lugar de fala, é preciso articular a dor, reconhecê-la, colocá-la em um lugar político, aquele lugar onde o outro está incluído como um sujeito de direitos que também tem a sua dor.

Mas se o lugar de fala – mesmo quando tenha vindo da dor – interrompe o diálogo, então ele corre o sério risco de estar contra si mesmo, de ter regredido a um momento que podemos chamar de anti-político. Se, de dentro da minha dor, eu elimino o diálogo, posso já ter deixado de lado a luta. Posso estar perdido em um exercício de puro ressentimento, no extremo – e há extremos – posso estar gozando na vingança ou na prepotência autoritária mascarada das mais belas lutas, tais como a da esquerda, do feminismo e do antirracismo.

Ora, ninguém está livre de afetos tristes em política. Quantas vezes não nos deixamos levar por vaidades, infantilismos, ressentimentos? Quantas vezes o moralismo burguês não toma nossos corpos e mentes e nos faz disputar com os próprios companheiros e companheiras quando deveríamos nos unir para combater os inimigos reais? Nesse sentido, falo com uma intenção que é a autocrítica da luta, em nome de uma ética da luta. Somente uma ético-política da luta sustenta a verdadeira política da luta. Pois a luta política sem ética é como a luta política sem política. A destruição da própria luta é a destruição da política. E vice-versa, pois política é luta.

Política da escuta

Nada é mais importante, no contexto das disputas dos lugares de fala, do que a política da escuta. Um homem branco, sujeito de privilégios, deve praticar essa política sempre. Um homem branco poderá ajudar muito a luta ao praticar essa ético-política da luta por meio da escuta e poderá, junto aos seus, ser um mensageiro de direitos que ele crê ou defende como sendo bons para a sociedade como um todo na pessoa de cada um dos seus participantes respeitados em suas singularidades.

A confusão atual sobre quem pode falar sobre o quê em temos de luta precisa ser desmanchada: assim como não deve haver hierarquias de opressão não deve haver hirarquia de luta. O protagonismo dos sujeitos marcados não pode se tornar motivo para que os marcados diferentemente não lutem por todos.

Dia desses estive na ALESC (Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina) falando com muitas mulheres, ativistas e feministas de diversos movimentos. No final de todas as falas um homem branco líder do movimento dos moradores de rua pediu a palavra e falou que não tinha conseguido a adesão de nenhuma mulher do movimento para estar ali naquele momento. Em suas palavras, as mulheres que moram nas ruas vivem em condições piores do que as condições dos homens nas mesmas circunstâncias. Ele era um homem só e naquele momento vivia o conflito de estar ali e falar ou simplesmente ficar quieto. Afinal, é um homem e aquele era um momento da fala feminista que defende os direitos das mulheres.

Podemos nos perguntar se sua singularidade poderia ser apagada naquele momento? Se o feminismo em diálogo o silenciasse, não estaria sendo um autoritarismo disfarçado? Alguém poderá dizer que aquele homem era um opressor disfarçado que veio protagonizar no lugar onde deveria estar uma moradora de rua. Alguém poderá dizer que ele mesmo mentiu para estar naquela posição apagando uma mulher. Nunca saberemos. O fato é que sua presença e sua fala apontaram para uma ferida social imensa.

Ele falou como podia, se fez ver e, dessa forma, fez com que víssemos a ausência das mulheres de rua e de muitas outras mulheres que não estavam ali. Ao falar usando seu lugar de fala de “homem branco morador de rua”, ele mostrou a ausência das mulheres, mas também a ausência de outros homens e de pessoas em geral em uma sociedade de injustiça para todos. Ele conseguiu assim, dar relevo à sua luta e ao lugar ausente de alguém que não poderia estar ali por não ter as mínimas condições para exercitar sua presença diante de outros. Teria ele roubado “protagonismo” de alguém? Ou teria mostrado a importância da fala e do direito à presença? Teria ele usado um lugar de dor, além de um lugar de fala? Pensemos.

Naquele momento, ele me pareceu o porta-voz de algo absurdo, do abismo profundo em que estamos mergulhados. Sem ele, nós que moramos em casas, não teríamos notado a ausência das moradoras de rua.

Pensando nisso é que pergunto a cada um, com a simplicidade da urgência, se a desunião vale a pena.

Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/lugar-de-fala-e-etico-politica-da-luta/

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Curs: “Esquimals i Víkings a Groenlàndia: d’un medi verge a la construcció d’un paisatge agropastoral”

Curso interessantíssimo que será realizado no período de 24 a 27 de abril de 2017, na Universidade de Barcelona, Barcelona, Espanha. Vejam como, cada vez mais, as barreiras disciplinares são abandonadas em prol de um conhecimento integrado.

Maiores informações abaixo:

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Na era da pós-verdade, os fatos precisam de defensores, por Tim Harford

Bom texto de Tim Harford, do Financial Times e publicado aqui no Brasil pela Folha de São Paulo, que mostra como a indústria do cigarro utilizou argumentos que hoje estão sendo chamados de pós-verdade, para minimizar os estudos que relacionavam diretamente o ato de fumar à ocorrência de câncer:

Um memorando interno infame da empresa de cigarros Brown & Williamson, redigido no verão de 1969, apresenta o pensamento do setor muito claramente: “A dúvida é nosso produto”. Por que? Porque semear a dúvida “é a melhor maneira de competir com o ‘conjunto de fatos’ existente na cabeça do grande público. É também o jeito de se criar uma controvérsia.” O mantra do “Big Tobacco” (a indústria de cigarros): alimentar a controvérsia.

As colocações nos ajudam a entender como a difusão de falsidades e mentiras ajudam aqueles cujo objetivo é utilizar os mecanismos da mídia e de absorção de conhecimento por parte de nosso intelecto. Mais ou menos como a velha expressão, não importa se bem ou mal, o importante é que falem de mim. Ao negar as informações falsas na verdade se está reforçando aquele conteúdo. Por isso o título “Na era da pós-verdade, os fatos precisam de defensores”! Segue o texto do artigo:

Pouco antes do Natal de 1953, os líderes das maiores empresas americanas de cigarros se reuniram com John Hill, fundador e executivo-chefe de uma das maiores firmas americanas de relações públicas, a Hill & Knowlton. Apesar do ambiente luxuoso –o Plaza Hotel, dando para o Central Park, em Nova York–, o clima era de crise.

Cientistas estavam publicando evidências sólidas de um vínculo entre o tabagismo e o câncer. Do ponto de vista das empresas de cigarros, o mais preocupante era que “The Reader’s Digest”, a publicação mais lida do mundo, já tinha divulgado essa evidência em um artigo publicado em 1952, “Cancer by the Carton” (O câncer em maços). Escrevendo em 1954, o jornalista Alistair Cooke previu que a publicação do próximo grande estudo científico sobre tabagismo e câncer poderia acabar com a indústria de cigarros.

Isso não aconteceu. O guru de relações públicas John Hill apresentou um plano –que, visto em retrospectiva, foi tremendamente eficaz. Apesar de seu produto ser viciante e letal, a indústria do cigarro conseguiu evitar a regulamentação, litígios na Justiça e a ideia que muitos fumantes tinham havia décadas que seus produtos eram mortíferos.

A grande indústria do tabaco foi tão hábil em adiar o dia da prestação de contas que a tática que ela adotou vem sendo imitada desde então. Além disso, inspirou um setor crescente do mundo acadêmico que estuda como esse truque foi realizado.

Em 1995, Robert Proctor, historiador na Universidade Stanford que estudou a fundo o caso da indústria de cigarros, cunhou o termo “agnotologia”. Trata-se do estudo da produção intencional de ignorância, e o campo todo começou com as observações feitas por Proctor da indústria de cigarros.

Os fatos relativos ao tabagismo –fatos indiscutíveis, fornecidos por fontes de valor inquestionável– não foram os vencedores do embate. Os fatos incontestáveis foram contestados. As fontes inquestionáveis foram questionadas. O que se descobriu é que os fatos são importantes, mas não garantem a vitória nesse tipo de discussão.

A agnotologia nunca foi tão pertinente quanto agora. “Vivemos em uma era de ouro da ignorância”, diz Proctor hoje. “Trump e o ‘brexit’ fazem parte disso.”

No plebiscito britânico para decidir se o Reino Unido sairia da União Europeia, o lado favorável à saída apresentou o argumento falso de que o Reino Unido enviava £ 350 milhões (R$ 1,35 milhões) por semana à UE.

Seria difícil imaginar um exemplo anterior na política ocidental moderna de uma campanha que apresentou como argumento uma mentira tão deslavada, reafirmando-a quando foi refutada por especialistas independentes e acabando por triunfar.

Mas essa proeza seria superada pouco depois por Donald Trump, que alardeou ondas sucessivas de mentiras demonstráveis, mas foi recompensado com a Presidência. Os Dicionários Oxford declararam a “pós-verdade” a palavra do ano de 2016. Os fatos simplesmente pareciam não ter mais importância.

A reação instintiva daqueles entre nós (jornalistas, acadêmicos e muitos cidadãos comuns) que ainda nos importamos com a verdade vem sendo de checar e rechecar os fatos. Organizações de “fact-checking”, ou verificação de dados, como a Full Fact, no Reino Unido, e a PolitiFact, nos EUA, avaliam declarações de políticos e jornalistas que chamam a atenção pública.

Preciso confessar aqui que tenho um viés pessoal favorável a elas: eu mesmo já fui verificador de fatos do programa de rádio “More or Less”, da BBC, e frequentemente faço uso de sites de fact-checking. Em lugar de apresentar as versões das duas partes em uma história, como faria um jornalista tradicional, esses sites avaliam o que é verdadeiro.

O trabalho de verificação de dados pública e transparente tornou-se um elemento tão importante do jornalismo político de hoje que é fácil esquecer que essa atividade existe há apenas uma década.

Também os jornalistas da grande imprensa estão começando a abraçar a ideia de que mentiras ou equívocos devem ser identificados com destaque.

Considere o caso de uma reportagem no site da NPR (Rádio Pública Nacional) sobre o discurso que Donald Trump fez para a CIA em janeiro: “Ele negou falsamente que já tivesse criticado a agência, inflou falsamente as dimensões da multidão que acompanhara sua posse, na sexta-feira anterior”.

Tem sido uma quebra estimulante com as normas do jornalismo americano, mas a verdade é que o presidente Trump vem sendo uma quebra estimulante com as normas da política americana.

Também o Facebook contratou verificadores de dados, anunciando medidas contra as reportagens de “notícias falsas” que ganharam destaque tão grande em sua rede após a eleição. Hoje o Facebook permite que seus usuários denunciem falsas notícias.

O site envia manchetes dúbias a verificadores independentes de fatos, identifica notícias desacreditadas com tags de “contestado” e possivelmente reduz sua classificação no algoritmo que decide o que cada usuário vê quando entra no site.

Precisamos de algum consenso em relação aos fatos, senão a situação fica inviável. No entanto, será que esse destaque repentino aos fatos vai realmente levar a um eleitorado mais bem informado, a decisões melhores, a um respeito renovado pela verdade?

A história da indústria do cigarro sugere que não. O vínculo entre cigarros e câncer foi confirmado pelos maiores cientistas médicos do mundo e, em 1964, pelo próprio porta-voz principal dos Estados Unidos em questões de saúde pública. O tema foi coberto por jornalistas experientes, engajados com os valores da objetividade. Mesmo assim, os lobistas do tabaco deram um baile neles.

Nas décadas de 1950 e 1960, os jornalistas tinham uma desculpa para explicar seus tropeços: as táticas adotadas pela indústria de cigarros eram astutas, complexas e novas. Inicialmente a indústria pareceu estar reagindo bem, prometendo realizar pesquisas de alta qualidade sobre o tema.

Garantias foram apresentadas ao público de que as melhores cabeças estavam estudando a questão. A segunda etapa consistiu em complicar a questão e semear dúvidas: o câncer de pulmão podia ter um sem-número de causas, afinal.

E o problema real era o câncer de pulmão, e não o cigarro, certo? Na terceira etapa, pesquisas e pareceres sérios foram postos em dúvida. Resultados de autópsias eram descritos como casos isolados, estudos epidemiológicos como sendo dados meramente estatísticos, estudos com animais eram descritos como irrelevantes.

Por último veio a normalização: os fabricantes de cigarros indicavam que a questão do vínculo entre tabaco e câncer era notícia ultrapassada. Os jornalistas não podiam por acaso encontrar um tema novo e interessante para tratar?

Essas táticas hoje estão fartamente documentadas. Pesquisadores estudaram a fundo as tendências psicológicas que elas exploram. Assim, deveríamos poder identificar seu ressurgimento no campo de batalha político.

“É como se a equipe do presidente estivesse seguindo o manual de instruções da indústria do cigarro”, diz Jon Christensen, jornalista e hoje professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que em 2008 escreveu um estudo notável sobre o modo em que a indústria do cigarro manipulou a tradição jornalística.

Um memorando interno infame da empresa de cigarros Brown & Williamson, redigido no verão de 1969, apresenta o pensamento do setor muito claramente: “A dúvida é nosso produto”. Por que? Porque semear a dúvida “é a melhor maneira de competir com o ‘conjunto de fatos’ existente na cabeça do grande público. É também o jeito de se criar uma controvérsia.” O mantra do “Big Tobacco” (a indústria de cigarros): alimentar a controvérsia.

Normalmente não é difícil gerar dúvidas, e elas não são desfeitas apenas com fatos. Já deveríamos ter aprendido essa lição. Hoje estamos sendo obrigados a reaprendê-la.

Por mais que seja tentador combater as mentiras com fatos, essa estratégia encerra três problemas. O primeiro é que uma mentira simples é capaz de derrotar um conjunto complexo de fatos, simplesmente por ser mais fácil de entender e recordar.

Na dúvida, as pessoas muitas vezes tendem a acreditar naquilo que se fixa em sua cabeça. Em 1994 os psicólogos Hollyn Johnson e Colleen Seifert realizaram um experimento em que pessoas liam um relato de um incêndio em um depósito. O relato mencionava latas de gasolina e de tinta, mas explicava mais adiante que na verdade não houvera gasolina ou tinta presentes no local.

Os sujeitos do experimento, interrogados sobre o que se recordavam do relato, se lembraram da tinta que na realidade não estivera lá. Mas, solicitados a explicar fatos sobre o incêndio (“por que houve tanta fumaça?”), elas mencionavam a tinta.

Na ausência de uma explicação alternativa, voltavam àquela que já tinham admitido ser errada. Depois de ouvirmos uma alegação falsa, não há mais como “deixar de ouvi-la”.

Isso deve nos alertar: é desaconselhável deixar que um processo de mentiras e desmentidos tome conta do ciclo noticioso. Vários estudos já mostraram que reiterar uma afirmação falsa, mesmo que seja para desmenti-la, pode fazê-la “colar”.

O desmentido do mito parece funcionar, mas então nossas memórias se desvanecem e só nos lembramos do mito. Afinal, foi o mito que foi repetido várias vezes. No esforço para desmentir uma falsidade, desmentidos intermináveis apenas fortalecem o feitiço da mentira.

Com isso em mente, pensemos na alegação infame da campanha pelo “brexit”: “Mandamos £ 350 milhões por semana à UE”. Simples. Memorável. Falso. Mas como rebatê-lo?

Um esforço típico nesse sentido do jornal britânico “the Guardian” teve o título “Por que é falsa a alegação dos £ 350 milhões semanais para a UE feita pelo lado do Voto pela Saída”, repetindo a alegação falsa para então dedicar centenas de palavras a detalhes cansativos e à definição exata do termo “enviar”.

Esse tipo de artigo de verificação de fatos tem valor enorme para outros jornalistas que precisam que os pontos principais sejam detalhados e relacionados. Mas, para o eleitor comum, a mensagem que provavelmente ficou é: “Não dá para confiar nos políticos, mas parece que mandamos muito dinheiro à UE”. A dúvida foi ótima para a campanha pelo “brexit”.

Essa é uma vulnerabilidade inata do setor de verificação de dados. Os profissionais da checagem de fatos têm razão em ser meticulosos, em cobrir todos os detalhes e mostrar como foi seu raciocínio. Mas é por isso que a checagem de fatos só pode ser uma parte do esforço para fazer com que a verdade seja ouvida.

Andrew Lilico, um defensor da saída britânica da UE, me disse durante a campanha que queria que os ônibus britânicos tivessem exibido uma cifra mais defensável, como £ 240 milhões (R$ 930 milhões).

Mas ele reconhece que o valor falso apresentado foi mais eficaz. “Em termos cínicos de campanha, o uso da cifra de £ 350 milhões foi perfeito. Criou uma armadilha que atraiu a campanha pela permanência na UE a repeti-la inúmeras vezes.”

De fato. Mas não apenas essa campanha –também os jornalistas que investigam a veracidade de fatos, entre os quais eu me incluo. A declaração falsa foi muito mais poderosa do que uma declaração verdadeira teria sido, não por envolver uma quantia mais alta, mas porque todo o mundo ficou falando sobre ela sem parar.

Proctor, o historiador da indústria do cigarro e agnotologista, avisa que um efeito semelhante está acontecendo nos Estados Unidos: “Há o risco de os verificadores de fatos virarem empregadinhos de Trump, correndo de um lado a outro para verificar as declarações de outros.”

Há uma segunda razão por que os fatos parecem não merecer o respeito que esperaríamos. Os fatos podem ser entediantes. O mundo está cheio de coisas às quais prestar atenção, desde a TV-realidade até nossos filhos, do Instagram de um amigo a uma conta de impostos a pagar. Para que gastar tempo com alto tão maçante quanto fatos?

No ano passado, os pesquisadores Seth Flaxman, Sharad Goel e Justin Rao publicaram um estudo sobre como as pessoas leem notícias online. Aparentemente, o estudo foi uma investigação sobre a polarização das fontes de notícias.

Os pesquisadores começaram analisando dados de 1,2 milhão de internautas, mas acabaram estudando apenas 50 mil. Por que? Porque apenas 4% da amostra estudada liam notícias sérias em volume suficiente para merecer serem incluídos em um estudo dessa natureza (o critério aplicado era terem lido dez artigos e dois textos de opinião ao longo de três meses).

Muitos comentaristas temem que estejamos nos segregando em bolhas ideológicas, expostos apenas às visões de outros que pensam como nós. Essa preocupação tem certa base. Mas para 96% daqueles internautas, a bolha que vinha ao caso não era liberal ou conservadora, era “as notícias que se danem”.

Na guerra das ideias, o tédio e a distração constituem armas poderosas. Um estudo recente de propaganda política chinesa avaliou as táticas usadas por redatores pagos pró-governo (conhecidos como “o exército dos 50 cents”, devido ao valor que os colaboradores supostamente recebem por cada post escrito) que difundem comentários nas mídias sociais.

Os pesquisadores (Gary King, Jennifer Pan e Margaret Roberts) concluem: “Quase nenhum dos posts de 50 cents do governo chinês encerra qualquer tipo de debate ou discussão. Eles parecem evitar assuntos polêmicos por completo. O objetivo estratégico do regime é distrair e redirecionar a atenção do público.”

Astro da TV realidade, Trump conhecem bem o valor de uma distração divertida: basta começar uma briga com Megyn Kelly, com o “New York Times” ou até com Arnold Schwarzenegger. Por acaso isso não chama a atenção das pessoas mais que uma discussão sobre a reforma da saúde?

A indústria do cigarro também entendeu esse ponto, embora tivesse adotado uma abordagem mais intelectual à geração de distrações. “Você sabem quem é Stanley Prusiner?”, pergunta Proctor.

Prusiner é neurologista. Em 1972 ele era um pesquisador jovem que acabara de entrar em contato com um paciente com a doença de Creutzfeldt-Jakob. Era uma doença degenerativa pavorosa que na época se pensava ser causada por um vírus de ação lenta.

Após muitos anos de estudo, Prusiner concluiu que a doença era causada, em vez disso, por uma espécie de proteína de ação irregular. A maioria dos especialistas achou a ideia absurda, e a carreira de Prusiner começou a afundar. Promoções e dotações para pesquisa foram minguando.

Mas Prusiner recebeu financiamento do setor privado que lhe possibilitou levar seu estudo adiante. Ele acabou sendo justificado de modo espetacular, recebendo o Nobel de Medicina em 1997.

Em seu ensaio autobiográfico no site do Prêmio Nobel, Prusiner agradeceu seus benfeitores do setor privado pelo apoio crucial dado: eram a empresa RJ Reynolds, fabricante dos cigarros Camel.

A indústria do cigarro era uma fonte generosa de verbas para pesquisas, e Prusiner não foi o único cientista a receber dinheiro da indústria e também um prêmio Nobel. Proctor calcula que esse tenha sido o caso de pelo menos outros dez laureados com o Nobel.

Que fique claro: não se tratou de uma tentativa de suborno. Para Proctor, foi algo muito mais sutil. “A indústria do cigarro foi a maior fonte de financiamento de pesquisas de genética, vírus, imunologia e poluição aérea”, diz Proctor. Ou seja, quase tudo menos o tabaco. “Foi um projeto maciço de ‘pesquisas para desviar a atenção’.”

Esse financiamento científico ajudou a posicionar a Big Tobacco como uma indústria voltada ao bem público, mas Proctor acha que a finalidade principal da Big Tobacco foi produzir dados científicos especulativos novos e interessantes.

A doença de Creutzfeldt-Jakob pode ser rara, mas era notícia instigante. Doenças ligadas ao cigarro, como câncer de pulmão e doenças cardíacas, nem sequer são notícias.

O objetivo final dessas distrações é que questões de importância vital tornem-se tão desinteressantes que ninguém se dê ao trabalho de escrever sobre elas. Proctor descreve isso como o oposto do terrorismo: o trivialismo.

O terrorismo provoca uma reação enorme na mídia; o tabagismo, não. No entanto, segundo os Centros de Controle de Doenças dos EUA, o tabagismo mata 480 mil americanos por ano –mais de 50 mortes por hora. Raramente os terroristas foram capazes de matar tantos americanos em um ano inteiro. Mesmo assim, os terroristas conseguem dominar as manchetes, enquanto os trivialistas as evitam.

Hoje os observadores experientes da indústria do cigarro receiam que Trump exerça o mesmo efeito. No final, a maioria das pessoas começará a simplesmente se entediar com todo seu circo? Jon Christensen, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, diz: “Acho essa a perspectiva mais assustadora”.

Por outro lado, para ele, existe um elemento positivo em tudo isso: é quase impossível que o presidente dos Estados Unidos deixe de ser notícia. O lobby do tabaco e o governo chinês se mostraram muito hábeis em desviar as atenções para longe deles. Há razões para crer que isso será difícil para Trump.

PERSUASÃO

Existe uma última dificuldade em se tentar persuadir as pessoas, dando-lhes fatos verídicos: a verdade pode parecer ameaçadora, e ameaçar as pessoas tende a ter efeito inverso ao desejado. “As pessoas reagem no sentido contrário”, diz Jason Reifler, cientista político da Universidade de Exeter.

Esse “efeito inverso” está sendo estudado por vários pesquisadores, incluindo Reifler e seu colega Brendan Nyhan, de Dartmouth.

Em um estudo de 2011, Nyhan, Reifler e outros fizeram um ensaio randomizado em que informações científicas eram ou não eram mostradas aos pais de crianças pequenas, desmentindo um vínculo imaginário mas muito temido entre vacinas e autismo.

À primeira vista, os fatos eram persuasivos: os pais que tinham acesso aos dados científicos que desmentiam o mito tiveram menos tendência a pensar que vacinas causem autismo. Mas, mesmo depois de ser expostos aos fatos e apesar de terem aparentemente acreditado neles, os pais que já eram céticos em relação a vacinas mostraram tendência menor a dizer que vacinariam seus filhos.

O que está acontecendo? “As pessoas aceitam as informações corretoras, mas então as resistem de outras maneiras”, diz Reifler. Uma pessoa que teme a vacinação vai resistir subconscientemente, lembrando-se de todas as outras razões por que lhe parece que vacinas são uma má ideia. O medo do autismo pode ir embora, mas os outros medos ficam mais fortes que antes.

É fácil ver como isso pode acontecer em uma campanha política. Digamos que você teme que o Reino Unido seja invadido por imigrantes turcos, porque um membro da campanha pelo “brexit” lhe disse que a Turquia vai ingressar na UE em breve (mentira). Um verificador de fatos pode explicar que é improvável que a Turquia ingresse na UE no futuro previsível.

A pesquisa de Reifler também sugere que você aceite a ideia de que a Turquia não está prestes a entrar na UE. Mas você vai se lembrar de muitos outros medos: imigração, perda de controle, a proximidade da Turquia à guerra da Síria e ao Estado Islâmico, o terrorismo, etc. A mentira original foi desmentida, mas sua mentira sedutora continua presente.

O problema aqui é que, embora nós nos enxerguemos como seres racionais, nossa racionalidade não evoluiu apenas para solucionar problemas práticos, como construir uma armadilha para elefantes, mas para nos ajudar a nos orientarmos em situações sociais. Precisamos manter as outras pessoas do nosso lado.

O raciocínio prático em muitos casos não diz respeito tanto a determinar o que é verídico, mas mais a nos conservarmos na tribo certa.

Um sinal de como nossa lógica pode ser tribal foi visto em um estudo de 1954 conduzido pelo psicólogo Albert Hastorf, de Dartmouth, e sua colega Hadley Cantril, de Princeton. Os dois examinaram imagens de uma partida de futebol americano entre dois times universitários.

Foi uma partida violenta, em que um jogador quebrou a perna. Hastorf e Cantril pediram que os estudantes contassem as faltas e avaliassem sua gravidade. Os estudantes de Dartmouth tenderam a minimizar as faltas de Dartmouth, mas relataram todos os erros dos jogadores de Princeton. Os estudantes de Princeton tiveram o comportamento oposto.

A conclusão foi que, apesar de terem assistido às mesmas imagens, os alunos de Dartmouth e Princeton não assistiram aos mesmos fatos. Cada aluno tinha sua percepção própria, moldada por suas próprias lealdades tribais. Os psicólogos intitularem seu estudo “They Saw a Game” (Eles assistiram a uma partida).

Um estudo mais recente voltou a essa ideia, agora no contexto de tribos políticas. Os pesquisadores mostraram imagens de um protesto a estudantes e contaram uma história falsa sobre o que motivou o protesto.

A alguns estudantes foi dito que foi uma manifestação de defensores dos direitos dos gays, promovida diante de um centro de recrutamento do exército para protestar contra a política de “não pergunte, não revele” então adotada pelas Forças Armadas. A outros foi dito que era uma manifestação contra o aborto promovida diante de uma clínica de abortos.

Apesar de olharem para as mesmas imagens, os sujeitos do ensaio tiveram visões muito diferentes do que estava acontecendo nas imagens –visões moldadas por suas lealdades políticas. Os estudantes liberais foram tolerantes em relação ao comportamento de pessoas que acharam ser defensores dos direitos dos gays, mas acharam preocupante o que fizeram os manifestantes contra o aborto.

Os estudantes conservadores tiveram a visão oposta. Como no caso de “They Saw a Game”, a discordância não foi sobre os princípios gerais, mas sobre pontos específicos: os manifestantes gritaram com pessoas do público? Eles bloquearam o acesso ao prédio? Vemos o que queremos ver –e rejeitamos os fatos que ameaçam nossa visão de quem somos.

Quando chegamos à conclusão à qual queremos chegar, estamos praticando o “raciocínio motivado”. O raciocínio motivado foi um aliado poderoso da indústria do cigarro. Se você é dependente de um produto e muitos cientistas lhe dizem que esse produto é letal, mas o lobby do tabaco lhe diz que são necessários mais estudos, em quem você prefere acreditar?

O estudo de Jon Christensen sobre a campanha de relações públicas dos fabricantes de cigarros revelou que a indústria muitas vezes foi retratada positivamente na imprensa porque muitos jornalistas eram fumantes. Esses jornalistas queriam a todo custo acreditar que seu vício era benigno, e esse fato os converteu em transmissores ideais da mensagem da indústria do cigarro.

Mesmo em um debate poluído pelo raciocínio motivado, poderíamos esperar que os fatos ajudassem. Mas não é necessariamente assim: quando ouvimos fatos que nos contestam, amplificamos seletivamente aquilo que nos convém, ignoramos o que não nos convém e reinterpretamos o que é possível.

Mais fatos representam mais combustível no motor do raciocínio motivado. O dramaturgo francês Molière escreveu: “O bobo erudito é mais tolo que o ignorante”. A ciência social moderna concorda com ele.

Numa questão politicamente carregada, como as mudanças climáticas, a impressão que temos é que fornecer informações científicas precisas deveria promover um consenso. Mas o que acontece é o oposto, diz Dan Kahan, professor de direito e psicologia em Yale e um dos autores do estudo sobre as percepções de um protesto político.

Ele escreve: “Os grupos com valores opostos frequentemente se polarizam ainda mais, e não menos, quando são expostos a informações cientificamente validadas”.

Quando as pessoas procuram a verdade, os fatos ajudam. Mas quando elas raciocinam seletivamente sobre sua identidade política, os fatos podem ter o efeito inverso ao procurado.

PÓS-VERDADES

Tudo isso forma um quadro deprimente para aqueles de nós que não queremos habitar um mundo de pós-verdades. Parece que os fatos não têm força. O esforço de rebater uma mentira deslavada com um conjunto de fatos complexos frequentemente acaba reforçando a mentira.

As verdades importantes muitas vezes são desinteressantes e chatas, e é fácil inventar alegações novas e que chamam a atenção das pessoas. E oferecer mais fatos às pessoas pode ter o efeito inverso ao desejado, com esses fatos gerando uma reação defensiva em pessoas que querem muito conservar sua visão de mundo atual.

“É uma realidade tenebrosa”, diz Reifler. “Vivemos em tempos tenebrosos e assustadores.”

Existe alguma solução? É possível que sim.

Sabemos que o domínio de conhecimentos científicos pode na realidade ampliar a divergência entre tribos políticos diferentes sobre questões como a mudança climática –ou seja, que liberais bem informados e conservadores bem informados divergem mais em suas opiniões do que liberais e conservadores com pouco conhecimento da verdade científica.

Mas um novo estudo de Dan Kahan, Asheley Landrum, Katie Carpenter, Laura Helft e Kathleen Hall Jamieson explora o papel não do domínio de conhecimentos científicos, mas da curiosidade científica.

Para medir a curiosidade científica, os pesquisadores fizeram aos participantes do estudo perguntas diversas sobre seus hobbies e interesses. Foi apresentada aos participantes uma seleção de sites para que lessem e fizessem uma prova de compreensão.

Alguns optaram pela ESPN, outros pelo Yahoo Finance, mas os que optaram pelo Science demonstravam curiosidade científica. As pessoas cientificamente curiosas também se dispunham a assistir a documentários científicos mais que a programas de fofocas sobre celebridades.

Como se poderia prever, existe uma correlação entre conhecimentos científicos e curiosidade científica, mas as duas medidas são distintas.

O que Kahan e seus colegas constataram, para sua surpresa, foi que embora o raciocíno politicamente motivado pese mais que o conhecimento científico, ele “parece ser negado pela curiosidade científica”.

Lembre-se que as pessoas com conhecimentos científicos tinham mais tendência a ser polarizadas em suas respostas a perguntas científicas politicamente carregadas. Mas isso não acontecia com as pessoas cientificamente curiosas. A curiosidade aproximava as pessoas de uma maneira que os meros fatos não faziam.

Os pesquisadores teorizam que as pessoas curiosas têm uma razão adicional para buscar os fatos: “Para sentir o prazer de contemplar insights surpreendentes sobre como funciona o mundo”.

Então como podemos incentivar a curiosidade? É difícil fazer a reforma dos bancos ou a reversibilidade do Artigo 50 parecer mais interessantes que futebol, “Game of Thrones” ou programas de culinária. Mas parece ser isso o que é necessário. “Precisamos incluir as pessoas na história, em narrativas humanas de ciências, mostrar às pessoas como a ciência funciona”, diz Christensen.

Nós, jornalistas e analistas políticos, não podemos forçar ninguém a prestar atenção aos fatos. Precisamos encontrar um jeito de levar as pessoas a querer procurar os fatos. A curiosidade é a semente da qual podem brotar decisões democráticas sensatas.

Parece que ela é uma das únicas curas para o raciocínio politicamente motivado, mas também é a cura de uma sociedade em que a maioria das pessoas não presta atenção aos jornais impressos ou de TV porque acha as notícias entediantes ou confusas.

O que precisamos hoje é de um Carl Sagan ou David Attenborough da ciência social –alguém que seja capaz de suscitar um senso de maravilhamento ou fascínio, não apenas com a estrutura do sistema solar ou a vida dos animais em uma floresta tropical, mas diante do funcionamento de nossa civilização: saúde, migração, finanças, educação, diplomacia.

Nosso candidato para isso teria sido o médico e estatístico sueco Hans Rosling, morto em fevereiro. Ele atingiu um público surpreendente com algo que, essencialmente, eram simples apresentações de dados oficiais de organismos como o Banco Mundial.

Ele descreveu o que fazia como transmitir os fatos às pessoas: “descrever o mundo”. Mas os fatos precisam de defensores. Eles raramente se defendem sozinhos: precisam de alguém que nos faça nos importar com eles, que desperte nossa curiosidade em relação a eles. Foi isso o que Rosling fez.

E, diante da possibilidade apocalíptica de um mundo em que os fatos não interessam às pessoas, esse é um exemplo que precisamos seguir.

Tradução de CLARA ALLAIN

FONTE: http://m.folha.uol.com.br/mundo/2017/03/1865256-na-era-da-pos-verdade-os-fatos-precisam-de-defensores.shtml?cmpid=comptw

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Marilena Chauí: “Universidades devem entender que fazem parte da luta de classes”

A profa. Marilena Chauí, entrevistada por Fania Rodrigues para o Brasil de Fato, fala da crise da UERJ e do papel da universidade pública nesses tempos de ataque às conquistas sociais no pais. Um trecho:

Por fim, qual é o papel da universidade na luta de classes?

O papel da universidade é ser uma parte da luta de classes. A universidade não pode ser apenas um lugar que reflete sobre a luta de classes. Ela tem que compreender que é parte dessa disputa, seja pelo seu alunado, pela divisão entre seus professores, pelo papel das administrações e burocracias, que operam muitas vezes a favor da classe dominante. Somos parte da luta de classes e somos obrigados, como instituição de ensino, a entender esse papel que desempenhamos na sociedade.

O restante da entrevista pode ser lido clicando na imagem abaixo:

 

https://www.brasildefato.com.br/2017/04/04/marilena-chaui-universidades-devem-entender-que-fazem-parte-da-luta-de-classe/

 

 

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Entreconexões: Entrevista com a profa. Cristina Pessanha Mary (UFF) sobre o livro “Geografias pátrias: Portugal e Brasil – 1875/1889”

Recebi através da historiadora Luciene Carris, a divulgação do Canal no Youtube “Entreconexões”, iniciativa dela própria, bem como do historiador Vicente Saul e do videomaker Luis Felipe Pepa. Na página informa que o canal “pretende a difusão de entrevistas e de conteúdos sobre temas variados, propondo uma reflexão sobre a realidade contemporânea”. Clicando na imagem vc. tem acesso ao canal no Youtube:

interconexoes

Nesta semana a entrevista é com a professora Cristina Pessanha Mary (UFF) comentando seu livro “Geografias pátrias: Portugal e Brasil – 1875/1889”, uma temática muito cara à geografia histórica. O link segue na imagem abaixo. É muito bem vindo um canal de divulgação de temáticas da pesquisa científica em história e geografia. Confiram!

luciene

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