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IV Seminário Sabores Geográficos: Morte — Espiritualidade — Mineiridade

Acontecerá nos dias 1 e 2 de junho de 2017, o IV Seminário Sabores Geográficos: Morte — Espiritualidade — Mineiridade, em Belo Horizonte (MG), no Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A primeira circular do evento pode ser acessada aqui: clique aqui.

Para contatos, encontros e maiores informações, visite o blog do NPGEOH.

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SERVIÇO
Data: 1 e 2 de junho de 2017
Local: Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais
Endereço: Avenida Antônio Carlos, 6627, Pampulha, Belo Horizonte, MG. 31270-901.

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Defesa de dissertação de Priscila Viana Alves – Experiências Poéticas em Porto Alegre: uma leitura geográfica de Mario Quintana

Com satisfação comunico a defesa da dissertação de mestrado de Priscila Viana Alves, denominada “Experiências Poéticas em Porto Alegre: uma leitura geográfica de Mario Quintana“, que será defendida no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense (PPG), sob a orientação da profa. Elis de Araújo Miranda.

Priscila Viana Alves teve muito de seu aperfeiçamento acadêmico realizado junto aos sucessivos Grupos de Estudos de Geografia Histórica, do qual participou de grande parte deles. Por isso nos sentimos parte responsáveis por sua trajetória acadêmica que a leva agora à defesa da dissertação de mestrado. Desejamos sucesso à Priscila!

Maiores detalhes no cartaz abaixo:

Cartaz_Mestrado Priscila

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Entrevista com Alain Badiou: a clareza de um pensador sobre o tempo presente

Reproduzo aqui, pela relevância, a entrevista com o Prof. Alain Badiou, não a toa orientador de Slavoj Zizek.

Ele discorre sobre a geopolítica do mundo atual, sobre os processos eleitorais, sobre a polarização entre esquerda e direita nas democracias ociedentais, sobre a ascensão de discursos fascistas em momentos de crise, sob o beneplácito do capital e sobre sua proposta de manutenção de uma hipótese comunista como horizonte para as lutas necessárias dos excluídos por uma nova sociedade. Enfim, leitura necessária e tudo isso com a clareza de um pensador de 80 anos.

Título Original:

Geopolítica atual lembra véspera da Primeira Guerra Mundial, diz filósofo

FERNANDO EICHENBERG
ilustração DECO FARKAS

Folha de São Paulo, 16/04/2017 02h00

RESUMO Um dos filósofos mais importantes da atualidade compara a geopolítica contemporânea à situação da véspera da Primeira Guerra Mundial, explica por que discursos autoritários e nacionalistas se beneficiam das crises da democracia, analisa as semelhanças entre direita e esquerda e fala sobre sua hipótese comunista.

O filósofo, romancista e dramaturgo Alain Badiou, 80, um dos intelectuais mais importantes da França, compara a atual situação geopolítica à que antecedeu a Primeira Guerra Mundial (1914-18).

Para ele, a eleição de Donald Trump, nos EUA, é um caso patológico, enquanto o presidente Vladimir Putin, da Rússia, busca vingança pelo desmonte da União Soviética e leva seu país ao mesmo papel da Alemanha em 1914.

Badiou chama a atenção para a crise da democracia e para o clima de desorientação global, que podem favorecer regimes autoritários e reforçar discursos nacionalistas e populistas –situação que também afeta a França, onde Marine Le Pen, candidata de extrema direita, tem boas chances de ir para o segundo turno da eleição presidencial. A primeira rodada de votação acontece em 23 de abril.

Conhecido pelos concorridos seminários públicos que comanda desde 1966, ele analisa a ideia de que direita e esquerda são cada vez mais iguais e defende com rara convicção uma nova hipótese comunista, dissociada das experiências totalitárias do passado.

Em seus livros, reflete sobre o amor, a poesia, a matemática, a juventude, a política ou as dores e as crises do mundo. Como professor, orientou o filósofo esloveno Slavoj Zizek e Vladimir Safatle, que leciona filosofia na USP e é colunista deste jornal. Como dramaturgo, trabalhou com Antoine Vitez (1952-90) e Christian Schiaretti, entre outros diretores.

Badiou conversou com a Folha na capital francesa antes de os Estados Unidos lançarem 59 mísseis Tomahawks contra uma base aérea da Síria, em reação ao alegado uso de armas químicas por parte do ditador Bashar al-Assad.

*

Folha – Qual é a natureza da atual crise da democracia?

Alain Badiou – O regime democrático está em crise por não poder fazer crer que aceita hipóteses contrárias. O capitalismo se apresenta como hipótese única depois que a experiência comunista fracassou, e há uma tendência à ideia de que a representação política pode ser mais ou menos unificada. Todo mundo diz que é preciso superar a oposição entre esquerda e direita.

Na França, [o centrista] Emmanuel Macron [ex-ministro da Economia do socialista François Hollande e um dos líderes em pesquisas de intenção de voto para presidente] se apresenta como conciliador.

Pode ser que caminhemos para um partido único versão capitalista. O regime parlamentar supunha um tipo de tensão contraditória de políticas, mesmo que artificial. Havia a necessidade de uma diferença visível entre direita e esquerda. Hoje, a esquerda eleitoral, excluída a extrema esquerda, não é muito diferente estrategicamente do que fazem os demais. Isso cria a hipótese de enfraquecimento crescente do aspecto legível da democracia.

Ela está em crise, mesmo nos EUA. A eleição de Donald Trump foi algo um pouco patológico. E, na Europa, espalha-se a força de partidos autoritários, nacionalistas.

A democracia como regime apropriado ao desenvolvimento do capitalismo ordinário está em crise, e disso tudo podem surgir organizações políticas estritamente dedicadas à gestão do Estado. Organizações um pouco neutras, ligadas de modo explícito ao grande capital.

Para o senhor, a pluralidade política ou a diferença entre direita e esquerda não passa de ficção.

É uma ficção. Mas só funciona enquanto se acreditar que não é ficção. Hoje, à força de vermos governos de esquerda fazerem mais ou menos o mesmo que os de direita, a ficção não se sustenta mais. Por isso aparecem pessoas que dizem: “Não é preciso ter esquerda e direita, eu represento as duas, sou ao mesmo tempo pelo rigor econômico e pela justiça social”.

Há forte crescimento de discursos nacionalistas, xenófobos, racistas. Por que os períodos de crise, como foi o caso nos anos 1930, favorecem a direita dura, e não a esquerda?

Em crises sistêmicas médias, se os partidos estão habituados à ficção de que falei, eles deixarão seu lugar àqueles que sempre criticaram essa ficção. Os partidos fascistas e nacionalistas sempre criticaram a ficção e sempre disseram que somente eles representavam a vontade popular, a nação etc.

Eles propuseram ao capitalismo outra doutrina. Nos regimes fascistas, os capitalistas continuaram à vontade. A ficção do jogo democrático entre esquerda e direita foi substituída pela ficção da independência nacional do capital a serviço da grandeza da nação, da raça etc.

O capitalismo é polimorfo. Em períodos de desenvolvimento concorrencial simples, valem o parlamentarismo e a ficção direita-esquerda. Mas, quando sua capacidade de fazer redistribuição é diminuída, quando há menos dinheiro, ele é mais avaro, prioriza os capitalistas e prefere protocolos de autoridade. É o que se passa hoje.

Em períodos de crise, a ficção direita-esquerda desmorona, e as forças autoritárias levam a melhor. É preciso que o Estado mantenha a disciplina. O capitalismo precisa mais do que nunca que a polícia controle greves, que as pessoas possam trabalhar e que os desempregados se mantenham tranquilos.

Até hoje, os Estados autoritários não puderam se assumir plenamente como capitalistas. Eles necessitam de uma ideia intermediária. E a ficção fascista é a ideia nacional, racial, xenófoba etc. A ideia de que, se tudo vai mal, não é culpa do capitalismo, mas dos metecos, dos judeus, dos negros, dos árabes.

Por que é o regime autoritário que vence nesses momentos? Porque ele é sustentado pelo verdadeiro mestre, pelos dirigentes reais. Eles se lembram de que, na Comuna de Paris, na Revolução Russa, na China, grandes crises provocaram vitórias comunistas. Por isso, vão se proteger apoiando e financiando regimes que podem ser militares ou de partidos fascistas.

Estamos ameaçados por isso, e tudo vai depender do tamanho da crise. De qualquer forma, esta crise enfraqueceu muito a ficção direita-esquerda. No fim das contas, penso que entraremos em um período de redistribuição geral ideológica e política. Veja o espetáculo da eleição presidencial francesa.

Qual sua visão sobre a disputa presidencial na França?

Analiso o regime parlamentar como um regime que enquadra quatro orientações, e não duas.

Há as orientações conservadora e reformista, fundamentalmente de acordo quanto ao essencial, o sistema capitalista como via única etc. Os conservadores são mais levados a manter a disciplina da tradição, e os reformistas são mais ligados à ideia da necessidade de certas reformas sociais. Não há muita diferença entre os dois, e em alguns países eles governam juntos.

Em cada um dos lados, encontramos polaridades mais contraditórias. A extrema direita assume abertamente um princípio identitário forte, nacional ou racial. Na extrema esquerda, há certa ideia de que é preciso permanecer fora da cumplicidade evidente entre direita e esquerda tradicionais.

O período de crise aparece quando o jogo central entre forças conservadoras e reformistas está desregulado, e as alas extremas se reforçam de forma muito desigual. Por vezes, para o lado da extrema esquerda, e com mais frequência para o da direita nacionalista.

Analiso as eleições francesas nesse contexto. Nota-se grande crise dos dois organismos centrais, o partido conservador Os Republicanos e o Partido Socialista [PS].

Os Republicanos nomearam um candidato de sua ala mais à direita, François Fillon. O PS tem um candidato da ala mais à esquerda, Benoît Hamon. O partido propriamente antissistema, a Frente Nacional (FN, de extrema direita), de Marine Le Pen, está em posição de força.

Não se tem ideia do que vai acontecer. O dado atual é o surgimento, no meio, de uma tentativa interna do centro, mas que diz: “Terminemos com a ficção, porque não funciona mais; quero ser o representante do bloco central, sem divisão entre conservadorismo e reformismo, eu sou os dois”. É Emmanuel Macron, que se diz conservador reformista ou reformador conservador. A ficção direita-esquerda está tão doente que aquele que a representa a declara superada.

Aparentemente, Macron é apoiado por grande parte do capital dominante do país. Dirigentes de grandes empresas são favoráveis a sua candidatura porque sabem que terão paz com ele no poder.

Como o senhor analisa a vitória de Donald Trump nos EUA?

É uma vitória que eu chamaria de niilista. É o preço pago pela desindustrialização violenta dos EUA. As produções foram deslocadas para a China, o Camboja… Exatamente como em certas regiões da França. A primeira vitória de Trump ocorreu nas primárias republicanas, com um discurso populista. Ele prometeu expulsar os mexicanos, criar empregos, repatriar fábricas.

Na França, desempregados de áreas industriais foram do voto comunista ao voto na Frente Nacional.

A eleição de Trump indica que a desindustrialização, o puro financiamento do capitalismo das grandes metrópoles, cria uma clientela disponível para as hipóteses fascistas. Sobretudo porque nada está previsto contra isso. Só há Le Pen e Trump para dizer essas coisas que, afinal, eles não cumprirão.

Ninguém acredita que os EUA voltarão a ser o grande país industrial do passado. Ou então será instalado um verdadeiro protecionismo, que conduzirá à guerra. A eleição de Trump é um sinal de que há uma doença.

Vladimir Putin encarnou certa liderança nesse crescimento de forças populistas. Como o senhor vê isso?

Eu comparo a situação contemporânea ao momento de véspera da Primeira Guerra Mundial. Havia duas grandes potências, a França e a Inglaterra, que partilharam o mundo entre si. Havia um terceiro elemento, que estava insatisfeito por não ter seu império colonial: a Alemanha. E havia a Rússia, vasta potência com interesses na Europa central. A guerra eclodiu pois não se encontrou solução equilibrada.

Hoje há uma bipolaridade crescente China-EUA. Há uma Europa em declínio. E a Rússia, assim como em 1914, faz valer suas intenções com um Estado autoritário que conta com o apoio da população.

Putin é um chefe de Estado nacionalista que busca vingança pelo desmantelamento da União Soviética. Na minha opinião, ele encarna o papel dos alemães na guerra de 1914.

Desta vez, temos uma partida de quatro jogadores (EUA, Europa, Rússia e China) em uma combinação instável. Há a intervenção no conflito do Oriente Médio, como antes de 1914 havia a intervenção nos Bálcãs. Não sou muito otimista do que vai sair de tudo isso.

O sr. diz que a violência terrorista vem da destruição de três importantes Estados do mundo árabe-muçulmano (Iraque, Líbia e Síria) e da intervenção militar direta ou indireta dos ocidentais em países da Ásia e da África.

Vem da destruição dos Estados na região e, nos países ocidentais, da frustração e do niilismo de uma parte da juventude, representante da terceira geração de imigrantes. Eles não se sentem verdadeiramente franceses [ou europeus] nem integrados, há o desemprego.

E não se insiste o bastante no fato de que esses jovens se suicidam nos atentados. Para ter jovens assim, é preciso que estejam em um determinado estado de pulsão de morte e desesperança. E essa desesperança não vem do islã. Eles estão desorientados no sentido mais amplo. Algo semelhante ocorre quando se pergunta por que os operários do norte votam em Le Pen.

O senhor diz que a resistência de hoje, por meio de manifestações, protestos, petições, faz parte da “inexistência política”. As mobilizações no Cairo ou em Paris não seriam muito diferentes do Maio de 68 pela “linguagem pobre e sem unidade”, em movimentos que se impõem pela negação, e não pela afirmação de uma ideia. Houve o “Fora Mubarak”, no Egito, hoje temos “Fora Temer”, no Brasil.

Primeiro, de um ponto de vista abstrato e geral, é melhor que existam movimentos desse tipo do que não haver nada. Em segundo lugar, penso que o que conta na política é a afirmação. É algo quase filosófico.

A negação sozinha é criadora? Não é completamente verdadeiro que a destruição porta a construção. Claro que a negação é necessária, mas é a afirmação que deve comandá-la, não o contrário.

Noto que, nesses movimentos, o elemento afirmativo é pobre. Não há ideia. Nuit Debout [protesto contra a legislação trabalhista no ano passado, em Paris] foi o último deles, e o mais medíocre se comparado à praça Tahrir, aos movimentos na Tunísia ou aos protestos em Hong Kong. Era muito palavrório.

A luta contra a nova legislação trabalhista também foi negativa, não trazia nenhuma visão diferente do trabalho etc. Sem uma lógica importante da afirmação, só sobram coisas precárias e derrotadas.

O que o senhor pensa das iniciativas do Podemos, na Espanha, e do Syriza, na Grécia?

O Syriza capitulou, e não acredito que vá se reerguer. O caso do Podemos é mais complicado. Eles estão divididos. Uma parte deseja entrar no governo, outra pensa que, se isso ocorrer, eles não permanecerão Podemos por muito tempo. É um movimento simpático, mas não tenho muita esperança neles.

Na sua análise, há 30 anos vivemos um “tempo desorientado”, de ilegibilidade do período precedente. Como é esta época de contrarrevolução econômica, política e ideológica em que estamos, segundo suas palavras?

Há provavelmente três aspectos. O primeiro é o fracasso e o fim das iniciativas que visavam construir Estados sob bases completamente diferentes do capitalismo. Houve a derrocada dos Estados que se proclamavam socialistas, Rússia, China etc. É um elemento que encerra um período histórico no qual se podia crer que outro período histórico poderia surgir.

O segundo ponto é que o balanço desse fracasso foi deixado ao inimigo, à crítica reacionária. Essa época não foi compreendida; foi condenada e praticamente suprimida da história. O fracasso foi adicionado de uma derrota ideológica. Isso levou a uma desmoralização do campo revolucionário tal qual existia desde o século 19.

E a terceira razão é que o capitalismo acelerou sua transformação expansiva, realmente se globalizou. E [o fez] consciente de que, não tendo adversário, poderia retornar a sua antiga forma: o liberalismo. Fala-se de neoliberalismo, mas há muito pouco de “neo”. Houve uma nova energia conquistadora.

O espectro do comunismo estava morto, não assombrava mais. Essa desorientação é articulada a partir de uma derrota histórica, e a expansão da visão liberal teve via livre e uma violência particular.

Nesse contexto, encontrar outro caminho, uma orientação estável, uma força coletiva, tornou-se difícil, mas é o que é preciso fazer.

Como seria a “hipótese comunista” que o sr. defende, a invenção de uma modernidade não capitalista?

Se quisermos entender o problema do comunismo hoje, é preciso retraçar a sua história. São duas etapas bastante diferentes.

Houve a invenção da hipótese comunista, de sua criação, Marx e o Manifesto do Partido Comunista, essencialmente no século 19. Era uma ideia consolidada e que começava a se organizar em partidos.

A segunda etapa começa com a Revolução Russa, de 1917. Foi a primeira experimentação histórica da ideia e a primeira tentativa de construir uma sociedade que não se basearia na propriedade privada. Mas foi uma experimentação fracassada. Na minha opinião, porque sua organização se fundiu ao Estado. A ideia comunista foi engolida e devorada pelo poder.

Hoje, ou abandonamos a ideia, ou a fazemos entrar em sua terceira etapa. É uma escolha histórica. Eu proponho manter a ideia.

Qual seria a ideia?

O retorno aos princípios fundamentais do comunismo, ou seja, à ideia de romper com a organização da sociedade em torno da propriedade privada e de acabar com as modalidades de divisão do trabalho. Retornar também à ideia de que a organização, qual seja ela, não se funde ao Estado. Precisa ser uma mediação entre a população e o Estado. Sem isso, tem-se uma construção estatal monstruosa.

É preciso sublinhar que o fracasso da experiência comunista não se deu por uma oposição, ela se decompôs em seu interior.

Qual seria a nova forma da organização adequada a esta nova etapa?

Sabemos que não será o partido leninista. Sinto, hoje, uma tentação de retorno ao anarquismo –estamos de novo na discussão entre Marx e Bakunin–, na ideia de que só importa o movimento.

Não devemos ceder a essa tentação, achando que se desvencilhando do Estado tudo ficará bem, mas ter uma proposição nova e inventiva sobre a organização moderna do comunismo. A fusão do partido com o Estado representou o retorno a uma concepção tradicional do poder político. Se quisermos liberar a política comunista desse fracasso, devemos inventar uma forma de organização diferente da que é obcecada pela questão do poder.

Como o sr. vê as tentativas de procurar vias alternativas dentro do sistema capitalista, como produtores organizados em cooperativas?

Essas experiências podem originar ideias a serem integradas em um novo comunismo. De certa forma, a ideia comunitária sempre acompanhou a hipótese comunista, era a relação entre comunismo científico e utópico, por exemplo. Sou a favor da circulação entre os dois. Mas são experiências destinadas a permanecerem locais. Sair do sistema não basta, em algum momento será necessário quebrá-lo.

*Por que o senhor aprecia especialmente o filósofo grego Platão

Por um conjunto de razões. A primeira, e pela qual ele é muitas vezes criticado, é porque fez a primeira crítica séria da democracia.

Se olharmos de perto, é uma crítica contemporânea. Ele explica que a democracia é agradável, cada um faz o que quer e o que conta são os desejos individuais e o dinheiro. E conclui que a democracia é onde se pode viver sem ideias. Mas ele pensa que viver sem ideias não é bom. Eu concordo: uma vida é mais feliz com ideias do que sem elas.

A segunda razão é por sua intuição de que viver com uma boa ideia supunha o comunismo. Sim, ele reservou o comunismo aos dirigentes. Ele paga o preço de viver na Antiguidade. Mas, no comunismo dos dirigentes, não há propriedade privada, preocupa-se prioritariamente com o bem comum. E chega até a dizer que é preciso a igualdade entre homens e mulheres, o que é muito raro para a época.

Por fim, ele mostra que a chave é a afirmação, não a negação; e que a afirmação circula pela discussão. Por isso deu à sua filosofia a forma de diálogos. Ele mostra que, para partilhar a ideia afirmativa, a única solução é encontrar as pessoas.

DECO FARKAS, 31, é artista visual e ilustrador

FERNANDO EICHENBERG, é jornalista em Paris e autor de “Entre Aspas: Vol. 2” (L&PM)

Fonte: Folha de São Paulo, 16/04/2017.

Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/04/1875585-geopolitica-atual-lembra-vespera-da-primeira-guerra-mundial-diz-filosofo.shtml

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O filósofo, romancista e dramaturgo Alain Badiou (Foto de Fernando Eichenberg/Folhapress)

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II Congreso Internacional Caleidoscopio de la Ciudad Contemporánea – UFF/CAMPOS

Acontecerá na Universidade Federal Fluminense, no campus de Campos dos Goytacazes/RJ, no período de 5 a 8 de junho de 2017, o II Congreso Internacional Caleidoscopio de la Ciudad Contemporánea.

A inscrição de trabalhos (resumos) pode ser feita até 09/04/2017.

Maiores informações no site do evento: https://eventouff.wixsite.com/2caleidoscopio

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Indicação de filme: I Am Not Your Negro (2016)

Em tempos em que autoproclamados candidatos a presidencia da república vão à associações judaicas e realizam o exercício de discriminação e ofensas raciais dirigidas a negros e indígenas, isso indica algumas coisas.

Em primeiro lugar prova que a história não é linear. Não existe “progresso”, no sentido de “evolução”. Somos ainda e sempre retornamos aos tempos imemoriais em que se estranhava o outro, a diferença. É confundido alegremente progresso, evolução, com aumento de conhecimento técnico. Esse aumenta, mas a contradição é que é o imperativo do lucro provoca uma alteração que leva, muitas vezes à externalização dos custos. O meio ambiente está aí para comprovar isso.

Em segundo lugar a capacidade do ser humano de cometer as maiores barbáries e de as continuar cometendo. Não há evolução, somos os mesmos seres capazes das melhores e das piores atitudes. Não há pessoas defendendo a volta do regime militar? (Sobre isso recomendo o artigo “Aos que defendem a volta da ditadura”, de Eliane Brum).

Portanto um documentário como este, “I Am Not Your Negro” (Eu não sou o seu negro), do diretor Raoul Peck nos lembra a luta dos negros americanos por direitos civis e do racismo que ainda permeia a sociedade norte-americana e brasileira. Como sempre esquecemos, temos a obrigação de sempre (re) lembrar.

O filme é baseado nos escritos e conferências de James Baldwin, intelectual negro que conta a história da “América” através da trajetória de três lideres dos direitos civis dos quais foi contemporâneo: Medgar Evers, Malcom X e Martin Luther King Jr. Todos eles assassinados. Paralelamente vai contrapondo a memória da escravidão e dos protestos pela brutalidade policial contra os negros norte-americanos que chega aos nossos dias.

Abaixo o trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=ahObxbv0f6k

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Foto de Marcelo Werner em Cinemes Boliche, Barcelona, Espanha (08/04/2017)

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Lugar de fala e lugar de dor, por Márcia Tiburi

Artigo de Márcia Tiburi, na Revista Cult, fundamental para entendermos a proposta do humanismo e da inclusão de todos na sociedade, uma sociedade verdadeiramente democrática e não autoritária e discriminatória.

É preciso reconhecer o papel das chamadas “minorias” enquanto minorias políticas, pois no frigir dos ovos as chamadas minorias são, na verdade, as grandes maiorias silenciosas e discriminadas.

Também saber por que e como rechaçar as falas autoritárias: “O lugar de fala é fundamental para expressar a singularidade e o direito de existir. Deturpado, ele também é reivindicado por muitos cidadãos autoritários que reivindicam expressar preconceitos e, em sua visão deturpada, o fazem democraticamente. Esquecem que o que destrói a democracia não é democrático, mas isso é outro problema (grifo nosso)”

Enfim, vários elementos para reflexão nesses tempos de vários autoritarismos.

Lugar de fala e lugar de dor

O lugar de fala é o lugar democrático em relação ao qual precisamos de diálogo, sob pena de comprometer a luta

 

Para Tainá Reis e Vilma Piedade, companheiras de muitas lutas que me fazem pensar todo dia mais e mais

 As chamadas minorias alcançaram seu lugar no cenário político por meio da afirmação da identidade. É importante sublinhar que o termo minoria em seu uso isolado perde sua conotação fundamental, por isso, não apenas por dever didático, é que devemos sempre falar em minorias políticas.

Não poderia deixar de ser assim, a participação política implica a entrada do corpo marcado no lugar que o poder reservou para si contra os corpos, aquele lugar onde o poder se exerce para dominar o outro, para subjugar, para submeter, transformando cada um em objeto: o trabalhador no capitalismo, a mulher no patriarcado, o negro na raça, as formas de sexualidades no regime do contrato heteronormativo. A consciência disso levou a um ato de contramarcação politicamente produtivo: hoje as mulheres se auto-afirmam como categoria política, bem como as mulheres negras, os negros, os gays, as lésbicas, os surdos-mudos, os quilombolas, os moradores de rua, os sem-terra, os indígenas e assim por diante, sempre tendo em vista a reivindicação de um direito.

Só se entra na esfera política quando se quebra a blindagem do poder. Essa entrada é ela mesma já parte da luta política, seu momento originário a ser sempre reafirmado. No entanto, não se pode perder de vista que o conceito de identidade que hoje em dia é usado e ressignificado em sentido libertário, é originalmente opressivo. De nada vale senão como forma de quebrar a hegemonia do poder de uma identidade sobre as outras. Em uma sociedade que estivesse para além do poder, não usaríamos esse conceito tranquilamente.

A identidade é em seu uso no contexto das lutas políticas, uma força de alto impacto potencial. Quando nos afirmamos como mulheres, ou como mulheres negras, ou como mulheres negras lésbicas, ou como mulheres negras lésbicas muçulmanas, ou como mulheres negras lésbicas muçulmanas e brasileiras, nos tornamos mais potentes politicamente. Mas não devemos perder de vista o sério risco da fragmentação da luta que destrói a luta. Por fim, quando alcançamos a identidade mais pura, encontramos a condição do indivíduo isolado, único em sua diferença. É isso que nos faz pensar também no perigo de um conceito muito bonito atualmente usado, mas que se torna ingênuo quando perdemos de vista a sua origem no individualismo burguês: refiro-me ao conceito de singularidade que não deve ser elogiado sem a mediação da crítica.

Talvez seja desnecessário lembrar que a identidade é histórica, que não é natural. Mas atualmente devemos ser sempre didáticos quando falamos de questões do campo ético-político. O exemplo dos povos que habitam há milênios e séculos a terra hoje em dia chamada de Brasil deve sempre ser lembrado. Eles mesmos não chamavam a si mesmos de índios e só o fazem hoje em um esforço de conversar com esse outro que são os não-índios. Sabemos além disso que o nome mulher, bem como o nome feminismo, tem uma etimologia de assustar. Que o nome “negro” também não foi escolhido pelos povos africanos. Por isso mesmo, a auto-marcação é política e não um ato de consolo ou compensação. Esses termos só tem sentido quando são usados com uma função prática e política.

Lugar de fala e lugar da dor

Um xamã ou cacique, embora tenha um nome próprio, ao falar com os brancos fala de si como “índio” porque quer se fazer entender pelos não-índios. Assim as mulheres e as feministas que já desconstruíram o natural, também falam de si com intenção política, e também didática, de fazer o outro entender. Foi a partir daí que se começou a sustentar a ideia de um lugar de fala atualmente em voga na vida contemporânea. Ora, uma característica de nossa época é a sustentação da singularidade, a forma subjetiva que expressa a existência de cada um como um ser de diferença. Por meio da singularidade fica claro que cada um quer conquistar um lugar. Esse lugar tornou-se, pela auto-afirmação da singularidade que se expressa, um lugar de fala.

Os filósofos que escreveram confissões, as pensadoras que levantaram questões sobre os direitos das mulheres, muito antes de dispormos do nome feminismo, ocuparam o lugar metodológico da fala. Até mesmo Descartes ao escrever “penso, logo existo”, fez uso de um lugar de fala. O lugar de fala é fundamental para expressar a singularidade e o direito de existir. Deturpado, ele também é reivindicado por muitos cidadãos autoritários que reivindicam expressar preconceitos e, em sua visão deturpada, o fazem democraticamente. Esquecem que o que destrói a democracia não é democrático, mas isso é outro problema.

Quando pensamos no lugar de fala do autoritário, vemos que esse lugar é realmente complexo. Se confundimos o lugar de fala com a expressão de uma verdade pessoal à qual não deveríamos reduzir a singularidade, sempre podemos usá-lo para fins autoritários. Por meio dele, podemos interromper a luta como um fascista o faz.

Não é possível falar do lugar de fala sem pressupor o diálogo enquanto reconhecimento do outro. Por isso é que se torna necessário separar o lugar de fala do lugar da dor. O lugar da dor é de cada um e em relação a ele só podemos ter escuta. Já o lugar de fala é o lugar democrático em relação ao qual precisamos de diálogo, sob pena de comprometer a luta.

Às vezes um lugar de fala pode ser um lugar de dor, às vezes um lugar de dor pode ser um lugar de fala. Se o lugar de fala é abstrato e silencia o outro onde deveria haver um diálogo, então ele já não é mais um lugar político, mas um lugar autoritário que destrói a política no sentido das relações humanas que visam o convívio e a melhoria das condições da vida em sociedade.

Talvez até agora não tenhamos avaliado uma questão, a de que a marcação implica uma dor. Aquele que é marcado como minoria, carrega a sua dor e toda dor deve ser respeitada. Mas para que o lugar da dor se torne lugar de fala, é preciso articular a dor, reconhecê-la, colocá-la em um lugar político, aquele lugar onde o outro está incluído como um sujeito de direitos que também tem a sua dor.

Mas se o lugar de fala – mesmo quando tenha vindo da dor – interrompe o diálogo, então ele corre o sério risco de estar contra si mesmo, de ter regredido a um momento que podemos chamar de anti-político. Se, de dentro da minha dor, eu elimino o diálogo, posso já ter deixado de lado a luta. Posso estar perdido em um exercício de puro ressentimento, no extremo – e há extremos – posso estar gozando na vingança ou na prepotência autoritária mascarada das mais belas lutas, tais como a da esquerda, do feminismo e do antirracismo.

Ora, ninguém está livre de afetos tristes em política. Quantas vezes não nos deixamos levar por vaidades, infantilismos, ressentimentos? Quantas vezes o moralismo burguês não toma nossos corpos e mentes e nos faz disputar com os próprios companheiros e companheiras quando deveríamos nos unir para combater os inimigos reais? Nesse sentido, falo com uma intenção que é a autocrítica da luta, em nome de uma ética da luta. Somente uma ético-política da luta sustenta a verdadeira política da luta. Pois a luta política sem ética é como a luta política sem política. A destruição da própria luta é a destruição da política. E vice-versa, pois política é luta.

Política da escuta

Nada é mais importante, no contexto das disputas dos lugares de fala, do que a política da escuta. Um homem branco, sujeito de privilégios, deve praticar essa política sempre. Um homem branco poderá ajudar muito a luta ao praticar essa ético-política da luta por meio da escuta e poderá, junto aos seus, ser um mensageiro de direitos que ele crê ou defende como sendo bons para a sociedade como um todo na pessoa de cada um dos seus participantes respeitados em suas singularidades.

A confusão atual sobre quem pode falar sobre o quê em temos de luta precisa ser desmanchada: assim como não deve haver hierarquias de opressão não deve haver hirarquia de luta. O protagonismo dos sujeitos marcados não pode se tornar motivo para que os marcados diferentemente não lutem por todos.

Dia desses estive na ALESC (Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina) falando com muitas mulheres, ativistas e feministas de diversos movimentos. No final de todas as falas um homem branco líder do movimento dos moradores de rua pediu a palavra e falou que não tinha conseguido a adesão de nenhuma mulher do movimento para estar ali naquele momento. Em suas palavras, as mulheres que moram nas ruas vivem em condições piores do que as condições dos homens nas mesmas circunstâncias. Ele era um homem só e naquele momento vivia o conflito de estar ali e falar ou simplesmente ficar quieto. Afinal, é um homem e aquele era um momento da fala feminista que defende os direitos das mulheres.

Podemos nos perguntar se sua singularidade poderia ser apagada naquele momento? Se o feminismo em diálogo o silenciasse, não estaria sendo um autoritarismo disfarçado? Alguém poderá dizer que aquele homem era um opressor disfarçado que veio protagonizar no lugar onde deveria estar uma moradora de rua. Alguém poderá dizer que ele mesmo mentiu para estar naquela posição apagando uma mulher. Nunca saberemos. O fato é que sua presença e sua fala apontaram para uma ferida social imensa.

Ele falou como podia, se fez ver e, dessa forma, fez com que víssemos a ausência das mulheres de rua e de muitas outras mulheres que não estavam ali. Ao falar usando seu lugar de fala de “homem branco morador de rua”, ele mostrou a ausência das mulheres, mas também a ausência de outros homens e de pessoas em geral em uma sociedade de injustiça para todos. Ele conseguiu assim, dar relevo à sua luta e ao lugar ausente de alguém que não poderia estar ali por não ter as mínimas condições para exercitar sua presença diante de outros. Teria ele roubado “protagonismo” de alguém? Ou teria mostrado a importância da fala e do direito à presença? Teria ele usado um lugar de dor, além de um lugar de fala? Pensemos.

Naquele momento, ele me pareceu o porta-voz de algo absurdo, do abismo profundo em que estamos mergulhados. Sem ele, nós que moramos em casas, não teríamos notado a ausência das moradoras de rua.

Pensando nisso é que pergunto a cada um, com a simplicidade da urgência, se a desunião vale a pena.

Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/lugar-de-fala-e-etico-politica-da-luta/

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Curs: “Esquimals i Víkings a Groenlàndia: d’un medi verge a la construcció d’un paisatge agropastoral”

Curso interessantíssimo que será realizado no período de 24 a 27 de abril de 2017, na Universidade de Barcelona, Barcelona, Espanha. Vejam como, cada vez mais, as barreiras disciplinares são abandonadas em prol de um conhecimento integrado.

Maiores informações abaixo:

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