Trabalho de Campo “Paisagem e Cultura: um olhar sobre a Baixada Campista” – 31/10/2014

O Grupo de Estudos de Geografia Histórica promove mais uma de suas atividades que objetivam disseminar o conhecimento geográfico. Será o Trabalho de Campo “Paisagem e Cultura: um olhar sobre a Baixada Campista”, com o prof. Hélio Coelho, da UFF/CAMPOS. O trabalho de campo ocorrerá nessa sexta-feira, 31/10/2014, das 8 às 18 horas e percorrerá, a partir de Campos dos Goytacazes, as localidades de Goitacazes, Mineiros, Mussurepe, Santo Amaro e Farol de São Tome.

A Baixada Campista é uma região cultural que segue o eixo da RJ-216, entre Campos dos Goytacazes e o Farol de São Tomé. Serão abordados os principais elementos constituintes dessa paisagem cultural, sua formação histórica, ligada às atividades econômicas do açúcar e da cerâmica, bem como à influência da Igreja, exemplificada pelo Colégio dos Jesuítas, o Mosteiro de São Bento e a festa de Santo Amaro. As inscrições são gratuitas e deverão ser realizadas antecipadamente devido à lotação do microonibus. O email para inscrição é o gegh.uffcampos@gmail.com.

Abaixo postamos o cartaz da atividade e o conto “Um conto de Santo Amaro”, recomendado pelo autor da atividade como um roteiro do que será visto no campo.

cartaz tc hélio coelho

Um conto de Santo Amaro

Por Hélio Coelho (*)

Saíra de casa apressado e até certo ponto assustado com a quantia de dinheiro que carregava no bolso. O avô lhe fizera todas as recomendações.

– Cuidado! Na hora de fazer o depósito vê se tem alguém te observando. Não fale com estranhos. Não esqueça do recibo. Isso e aquilo e por aí vai …

Atravessou a ciclovia e partiu para o banco, na Pelinca. Enquanto caminhava ia pensando com tristeza na possibilidade de perder a carona para conhecer e observar a tão falada Festa de Santo Amaro. O dia 15 de janeiro tinha chegado e justamente agora estava enrolado com aquele depósito para fazer. Provavelmente filas enervantes e depois ainda teria outras obrigações. No entanto, por mais que isso o angustiasse, jamais diria não a um pedido do avô, tão querido e tão presente em sua vida.

Dito e feito: filas enormes e o sistema fora de linha. Ainda reinava muita confusão sobre aquele dia, se seria feriado ou não. E agora? A essa altura os amigos já haviam passado por lá. Perguntou as horas ao guarda. Onze e meia. Nada funcionando, tudo parado. A ansiedade aumentava o desconforto de ficar ali na fila, em pé, com as pernas doendo e a cabeça esquentando. Calculou mais ou menos meia hora e saiu.

– Ah, o ar da Pelinca deixa o homem livre! Falou consigo mesmo lembrando-se de uma aula de história qualquer … Desassossegado, sem saber exatamente o que fazer, seguiu como quem vai para o Sagres.

Em frente à Boutique Zazá, percebeu um GOL aproximando-se devagar e ouviu um grito que fez brilhar os seus olhos.

– E aí,cara, vai ou não vai?

Os amigos deram um tempo ao saber que ele fora ao banco e antes de botar o carro na estrada, resolveram procurá-lo na área.

Ele era estudante de Ciências Sociais na UERJ, e, lá, um professor chamara sua atenção para a importância das manifestações populares como traço da identidade cultural de um povo. Prometera, então, ao mestre, recolher alguns elementos significativos da Festa de Santo Amaro, tradição que se mantém há quase duzentos e cinqüenta anos. Agora, sim, todos juntos seguiram em direção à Baixada Campista, aonde está a Vila que tem o nome do Santo, situada a quarenta e cinco quilômetros da cidade e à cinco da praia do Farol de São Tomé.

– Olhaí pessoal, se eu não fosse ateu e materialista, ia até dizer que Santo Amaro tá me dando uma colher de chá hoje. Eu já estava sem a menor esperança da gente ir pra lá. Pois é, valeu mesmo!

Foi então que ouviu a voz pausada que veio do banco da frente:

– Rapaz, não se espante com tão pouco. Dia de Santo Amaro tudo pode acontecer!
Era o professor, pai de um dos seus amigos, e que tendo raízes na Baixada, ali estava com uma espécie de cicerone da rapaziada. Relatos dos tempos de seu avô, bem como prosas e prosas com seu pai, desde cedo despertaram nele o gosto pelas coisas e pelos causos daquela região do município de Campos dos Goytacazes imortalizada por José Cândido de Carvalho em O Coronel e o Lobisomem.

Pegaram a 28 de março e no fim (ou começo?) da ciclovia entraram na estrada percebendo, à direita, as sinistras ruínas da Usina Santo Antonio como indicação do fantasma da quebradeira, que, como um espectro, vive rondando os usineiros e os plantadores de cana da Baixada e do município.

Passaram por Donana e chegaram a Goitacazes. O pessoal espantou-se com o crescimento urbano da antiga São Gonçalo. Alguém exclamou:

– Puxa, tão perto e tão desconhecido da gente que só vai pra Atafona e Grussaí!

Ao longo da Rodovia do Açúcar vão sentindo a força das cerâmicas que se multiplicam.
Em Campo Limpo, uma pequena parada para olhar de perto a igreja histórica e pisar o chão de um dos marcos inaugurais da colonização de Campos.

Mineiros. Descobrem a entrada que vai para o Caboio dos Olhos D’Água, para São Martinho e Barra do Furado. Bem que procuraram mas nem vestígios encontraram da Usina que havia por ali.

Apressadamente passaram por Saturnino Braga como quem passa por um nome que lembra alguém ou alguma coisa. É que durante um bom tempo o lugar passou por uma grave crise de esvaziamento. Mas, se tivessem parado pra dar uma olhada com mais calma, teriam visto que o Braga está renascendo com força!

Perto de Mussurepe, deram uma entradinha para conhecer o imponente Mosteiro de São Bento, importante referência no processo de construção da história da Baixada desde os tempos coloniais.

Em Mussurepe, foram lembradas e homenageadas as famílias mais antigas e tradicionais do lugar, ressaltando-se a figura inesquecível do “farmacêutico-médico” da baixada Antonio Coelho dos Santos. A pequena estação ferroviária ainda está lá. E de repente, foi como se todos ficassem a imaginar como era uma viagem de trem de Campos a Santo Amaro…

Realidade chegando: Baixa Grande. Usina falida, povo desempregado e antigos proprietários envolvidos em escândalos e maracutaias. Dizem que, a exemplo de outras, a empresa vai mal, o povo de mal a pior, e a família do dono vai bem, muito bem, viajando e morando com aquele requinte dos tempos da Casa Grande…

Finalmente, Santo Amaro.

O professor fala uns versinhos:

“ No dia 15 de janeiro tem
em Santo Amaro Grande festa popular.
De toda parte muita gente vem
pagar promessa e depois rezar.
De manhãzinha tem um foguetório
que faz a Vila inteira acordar.
Depois começa o vai e vem do povo
que chega, chega, chega sem parar.”

Quase duas da tarde e já tem muita gente. A prefeitura fez um atalho pra facilitar o trânsito que flui lento, parando. A turma do 171 ataca pelas janelas do carro, querendo vender fitas milagrosas, imagens poderosas e outros produtos “pra ajudar na Igreja”.

E por falar nisso, a igreja está um brinco, novinha, reluzente. E  Prefeit@ é bob@?

Naquele tumulto, alguém sugere uma ida ao Farol, tão pertinho. Tomar uma gelada, almoçar e voltar na hora da cavalhada.

– É isso aí, inclusive eu nunca fui ao Farol! Disse Leonardo, o universitário interessado na pesquisa antropológica.

Saíram do sufoco e logo chegaram. Lá, o espanto foi com o próprio farol. Inaugurado em 1883, a bela e robusta construção provocou debates se foi ou não projetada pelo famoso engenheiro francês Gustave Eiffel, o mesmo da torre de Paris.

A fome apertou, a sede também, e a conversa mudou de rumo. Tomaram uma “estica o braço” do barril e beliscaram carne seca no feijão em Benicinho e foram comer uma peixada no Alambique do Leley. Entusiasmado, Leonardo, o inquieto observador participante, bateu no bolso da calça e gritou:

– Tudo por minha conta!

Lá pelas quatro e meia, o grupo voltou para Santo Amaro. O professor, de novo puxou outros versinhos:

“E aí se junta grande multidão
a cavalhada já vai começar.
Será o mouro, será o cristão,
Quem dessa vez a luta vai ganhar?”

Com muita dificuldade, estacionaram o carro. Não para de chegar gente, de toda parte, de toda espécie. Compadres, comadres, políticos, romeiros, anônimos e celebridades.

Impressionado com o movimento, Leonardo contratou um fotógrafo para uma série de registros. Levava a pesquisa a sério quando parou numa barraca onde se jogava Campistinha, famoso jogo de dados da região.

Jogou. Ganhou. Perdeu…

Dali, foram visitar a igreja por dentro, ver a imagem do Santo e em seguida dirigiram-se à capela, aonde assistiram comoventes manifestações de devoção, fé e adoração.
Retratos, pinturas, partes do corpo em gesso e em cera, tudo atestando o momento de pagar a promessa e de mostrar reconhecimento pela graça recebida. Calor imenso. É janeiro, verão, e as velas acesas reforçam a sensação de abafamento. Sentimentos de vida resgatada e ao mesmo tempo é forte aquele cheiro de igreja, de velório, de semana santa.

Lá fora respiraram fundo e se emocionaram com a cavalhada. Vestidos de azul, cavaleiros da terra representavam os cristãos, e os de vermelho encarnavam os mulçumanos. Escolhidos a dedo, preparam-se o ano inteiro para esse momento de glória: mostrar a destreza no comando do cavalo, a precisão no manejo da lança e por fim, fazer com que seja proclamada a verdade cristã pela conversão dos mouros. Depois, juntos, vão se prostrar de joelhos aos pés do altar do Glorioso Santo Amaro. Espetáculo fascinante!

Mais uma voltinha pelas barracas, desta vez à procura de lembrancinhas da festa e a dura constatação: O Paraguai também é aqui …

A noite chega e começam os preparativos para o grande show de Wando. O locutor anuncia que “o maior cantor romântico e sensual do Brasil vai deixar o público molhadinho com pêssegos em compotas e vai distribuir as mais excitantes calcinhas que uma mulher já usou para o seu homem”. Esse atrevimento foi considerado por alguns mais conservadores como uma afronta, uma imperdoável profanação.

Quando a missa acabou, foram contar o ocorrido para o padre e quase que o show foi cancelado.

Wando era considerado brega demais para a galera e ficou decidida a volta pra Campos antes mesmo do início do show. Nesse momento, passou a procissão e a banda tocava o “Queremos Deus, que é nosso Pai, queremos Deus que é nosso irmão”, entrando aí a tuba com o inesquecível “pom, pom-rom, pom, pom, pom, pom”.

A volta foi um silêncio só, depois de tanta cerveja, cachaça, traçado, peixada, pimenta, e outras especiarias.

– Chegamos! Anuncia o professor que, com a proteção do Santo, conseguira trazer o carro, acordando a todos, deixando-os em casa com uma agradável sensação de felicidade por ter feito a iniciação daqueles jovens em tão relevante traço cultural do jeito especial de  ser campista.

Leonardo entrou em casa com um misto de pânico e remorso por ter gasto, na farra, parte daquele dinheiro que lhe fora confiado para depositar. Tomou a decisão de falar a verdade.Chegou logo dizendo o que havia acontecido e pediu perdão, entregando ao avô o maço com o dinheiro que restara e abaixou a cabeça, olhos fechados.

O avô, perturbado com a situação, começou a contar o dinheiro pra sentir o tamanho do prejuízo.

– Ué, tá certinho! Exclamou. Tá tudo aqui. Não falta nem um tostão! Vai dormir menino, você bebeu demais e saiu do sério.

Leonardo, atordoado como fica todo ateu que se preza numa situação assim, saiu da sala falando sozinho:

– Não pode ser. Não posso acreditar. Como? Eu gastei. Eu vi, eu gastei!

Foi sentar na varanda e respirar o ar fresco da noite. Num dado momento, uma frase, que ouvira mais cedo, ficou martelando sua cabeça.

– … Dia de Santo Amaro tudo pode acontecer.

Será?

Cansado, foi dormir. Sonhou com a imagem do Santo dando-lhe uma piscadinha brejeira e um sorriso maroto.

(*) Hélio Coelho é Professor da FDC e da UFF/Campos. É da Academia Campista de Letras.

FONTE: http://www.fmanha.com.br/blogs/opinioes/2012/01/15/um-conto-de-santo-amaro/comment-page-1/

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