A importância da fotografia nos estudos sobre o cotidiano

A fotografia tem uma grande importância em estudos de ciências humanas e sociais e também, claro, para a geografia e para a geografia histórica. Com ela é possível contar histórias de vida, de vivência do cotidiano, o que só é feito por indivíduos de carne e osso. Cotidiano, que para Milton Santos  representa “…uma espécie de quinta dimensão do espaço banal, o espaço dos geógrafos” (A Natureza do Espaço, p. 321).

Queria destacar aqui a reportagem sobre a fotógrafa norte-americana Vivian Maier, descoberta por acaso por um corretor de imóveis e historiador ocasional, John Maloof. Ele encontrou seu acervo em “buracos negros da memória coletiva“, que é como o artista belga Francis Alÿs chama os antiquários, leilões de tralhas, feiras, mercados de pulgas, etc. (FRAIA, 2014).

A história da fotógrafa Vivian Maier é sensacional, pois foi “alguém que só existe nas coisas que viu”, título de outro artigo que complementa a reportagem da qual extraímos a seguinte frase: “Vivian Maier representa um caso extremo de descoberta póstuma: aquele de alguém que existe unicamente nas coisas que viu. Maier não só era totalmente desconhecida no mundo da fotografia como ninguém parecia nem sequer saber que ela tirava fotos”. Ela foi babá de uma família e durante suas folgas gostava de fotografar deixando um acerco de 30 mil negativos, 1.600 rolos de filmes não revelados, que por pouco não se perdem (DYER, 2014).

Enfim, vale a leitura!

Uma vida revelada

A descoberta do tesouro Vivian Maier

EMILIO FRAIA

RESUMO

Descoberta por acidente, a obra da norte-americana Vivian Maier tornou-se um dos maiores tesouros fotográficos do século 20. As 100 mil fotos que a babá fez anonimamente só foram valorizadas após sua morte, em 2009, e viraram tema de filmes e livros, como “Vivian Maier: Uma Fotógrafa de Rua”, que sai no Brasil.

Em 2007, John Maloof, um corretor de imóveis e historiador ocasional de 26 anos, andava atrás de material iconográfico para a elaboração de um livro sobre Portage Park, bairro onde vivia, em Chicago. O volume serviria para promover a região, “colocá-la no mapa imobiliário da cidade”. Na época, John também presidia uma certa Associação de Preservação Histórica do Setor Noroeste de Chicago, e passava parte de seus dias tragado por antiquários, leilões de tralhas, feiras, mercados de pulgas, aquilo tudo que o artista belga Francis Alÿs apelidou de “buracos negros da memória coletiva”.

Certo dia, na modesta casa de leilões e venda de “móveis vintage, objetos para casa, arte e antiguidades” RPN (iniciais dos donos Roger, Paul e Nancy), John esbarrou numa caixa atulhada de velhos negativos e fotografias, uma coleção de imagens urbanas dos anos 1960. Sem saber muito bem se aquilo poderia ou não ser útil a sua pesquisa, deu um lance de US$ 400 (cerca de R$ 890) e arrematou o lote: 30 mil negativos, 1.600 rolos de filmes não revelados.

Foi para casa, abriu o pacote. As imagens nada tinham a ver com a vizinhança sobre a qual estava interessado –acabou não utilizando uma foto sequer no projeto do livro. Ficaram na caixa, num armário, por quase um ano.

Nesse ponto, como num daqueles contos de Maupassant em que depois de uma breve introdução o narrador diz aos ouvintes (quase sempre no final de um jantar): “Vou lhes apresentar o caso mais inquietante que jamais encontrei”, John Maloof nos fala de Vivian Maier. Primeiro, assim, apenas um nome, num envelope, em meio a rolos de filme. Na época, Maloof não sabia praticamente nada sobre fotografia, mas quando decidiu olhar de perto o que tinha em mãos (e era muita coisa), ficou impressionado. Estava ali, diante dele, um riquíssimo panorama social de Nova York e Chicago nos anos 1950 e 1960, um olhar cheio de empatia sobre crianças e mulheres, a vida de gente simples, a experiência dos afro-americanos na cidade, bêbados, vagabundos, a face de mármore de nobres senhoras vestidas com pompa, uma freira na sombra, um homem caído e centenas de autorretratos.

Resolveu ir atrás daquela que provavelmente seria a autora das fotos. Vasculhou a internet. Nenhuma referência no Google, nada no Flickr, Twitter, Facebook. Ao mesmo tempo em que tentava encontrar pistas –sem sucesso–, surpreendia-se cada vez mais com a qualidade do material. Passou a escanear os negativos e criou um blog. Seu interesse por fotografia também crescia. Fez cursos, leu livros, passou tardes indolentes assistindo à série “Os Gênios da Fotografia”, na BBC.

Em 2009, em mais uma de suas monótonas e periódicas varreduras em sites de buscas, algo enfim surgiu: um brevíssimo obituário, no “Chicago Tribune”, do dia 23 de abril daquele ano. Uma nota simples, que dizia apenas: “Vivian Dorothea Maier, francesa de origem e moradora de Chicago nos últimos 50 anos, faleceu em paz na segunda-feira. Foi uma segunda mãe para John, Lane e Matthew. Sua mente aberta tocou a todos que a conheceram. Sempre pronta a dar sua opinião, um conselho, uma ajuda”.

A partir disso, Maloof descobriu que John, Lane e Matthew eram irmãos e filhos de uma família para quem a senhorita Maier havia trabalhado por 17 anos, os Gensburg. E descobriu também que, durante 40 anos, entre Nova York, Los Angeles e Chicago, Vivian Maier fora babá. Nascida em Nova York em 1926, filha de pai austríaco e mãe francesa, separados quando Vivian ainda era bebê, mudou-se para uma pequena cidade na França, Saint-Julien-en-Champsaur, onde passou a maior parte da infância e da adolescência. Foi lá que, em 1949, começou a fotografar, com uma Kodak Brownie, uma câmera amadora rudimentar. Não se sabe exatamente como desenvolveu essa aptidão. Alguns dizem que foi influenciada pela lembrança de uma amiga de sua mãe, a retratista Jeanne Bertrand, que conhecera pequena, ainda nos Estados Unidos. Em 1951, aos 25 anos, voltou para Nova York. Foi quando começou a trabalhar como babá –e a fotografar, compulsivamente, o que fez até o fim de sua vida.

REVELAÇÃO

Em outubro de 2009, enquanto ia desvendando essas e outras pegadas, John postou o link de seu blog sobre Maier num grupo de discussão do Flickr chamado Hardcore Street Photography. Na postagem, perguntava: “O que devo fazer com essa tralha toda? Consideram esse trabalho digno de uma exposição, de um livro? Ou esse tipo de coisa surge o tempo todo, assim, do nada? Qualquer ajuda é bem-vinda”.

Em menos de 24 horas, Maloof recebeu mais de 200 respostas. Algumas, como a assinada pela alcunha Film Noir Anti-Hero, questionavam se aquilo não seria um “hoax”, um boato virtual: “Será que alguém não saiu por aí tirando fotos de pessoas vestidas com roupas dos anos 40 a fim de publicar na internet e dar o crédito para alguém que já morreu?”. Mas a maioria das mensagens (a postagem no fórum chegou a ter 752 respostas) era de relatos absolutamente emocionados com as imagens de Maier.

“Seus rolos de filme não são uma sequência de cliques. Vivian não era nada impulsiva, era cuidadosa a cada registro. Raramente tirava três ou quatro takes’ da mesma cena”, comenta John Maloof, em entrevista por telefone para a Folha. Sem perder tempo, John foi atrás dos outros lotes com o nome de Maier do mesmo leilão em que havia adquirido a primeira caixa. Arrematou praticamente tudo. Sua coleção, hoje, tem quase 150 mil negativos (boa parte ainda não escaneada), além de mais de 3.000 fotos impressas, centenas de rolos ainda não revelados e filmes de 8 mm gravados por ela. Nada disso veio à tona durante a vida de Maier, que, até onde se sabe, jamais mostrou a alguém seu trabalho.

Neste mês, com o lançamento no Brasil de “Vivian Maier: Uma Fotógrafa de Rua” [Autêntica, 136 págs., R$ 108], editado por John Maloof, com prefácio de Geoff Dyer (leia ao lado), talvez possamos adivinhar algo mais sobre a vida secreta da babá-fotógrafa, cuja obra não raro vem sendo colocada ao lado de mestres como Diane Arbus, Walker Evans, Garry Winogrand e Robert Frank.

Dois outros livros foram publicados recentemente nos Estados Unidos e podem aprofundar o olhar sobre seu legado: “Vivian Maier: Out of Shadows” [CityFiles Press, 288 págs., US$ 60], biografia escrita por Richard Cahan e Michael Williams; e “Vivian Maier: Self-Portraits” [ed. powerHouse Books, 120 págs., US$ 50], organizado por Maloof com Elizabeth Avedon. Para o fim de 2014, Maloof promete um novo volume de inéditas.

Uma exposição com as fotografias já passou por mais de dez países, incluindo Alemanha, Inglaterra e França, e nos próximos meses deve chegar à Bélgica e à Suécia. Dois documentários, “Finding Vivian Maier”, dirigido pelo próprio Maloof em parceria com Charlie Siskel, e “The Vivian Maier Mistery”, produzido pela BBC e dirigido por Jill Nicholls, aterrissaram recentemente nos cinemas e na TV.

EXPOSIÇÃO

O reconhecimento crítico despontou já em 2011, na ocasião da primeira exposição individual de Maier, organizada por Maloof, em Chicago. “Trata-se de uma das fotógrafas de rua mais argutas dos Estados Unidos”, escreveu David W. Dunlap, em extenso artigo no “New York Times”.

“As paisagens urbanas da senhorita Maier conseguem captar ao mesmo tempo a forte marca local e os momentos paradoxais que dão à cidade o seu pulso”, diz o articulista. “As pessoas em seus frames são vulneráveis, nobres, derrotadas, orgulhosas, frágeis, ternas e, não raro, bem cômicas.”

Apesar disso, Maloof viu portas de instituições como o MoMA e a Tate Modern se fecharem. “Eles não consideram as fotos como visão do artista se não forem impressas pelo próprio artista”, lamenta.

Para o crítico e curador Rubens Fernandes Junior, o fato de nos anos 50 Maier fotografar com uma Rolleiflex, formato médio 6 x 6 cm –mais tarde ela usaria as Rolleiflex 3.5T, 3.5F, 2.8C, uma Leica IIIc, além das Ihagee Exakta, Zeiss Contarex, entre outras– já é um indício de sua exigência em relação à qualidade da imagem. “Significa também, arrisco dizer, que ela provavelmente estava observando os fotógrafos do período”, diz.

A grande referência da época, chama a atenção Fernandes Junior, é a exposição de Edward Steichen, no MoMA, “The Family of Man” (1955), que se tornou um marco do imaginário do pós-Guerra. Embora existam poucos indícios nesse sentido, o crítico acredita que ela estava atenta ao mundo dos museus, para a produção de fotógrafos como Dorothea Lange, Eugene Smith, Irving Penn, Lisette Model, e às revistas como “Life”, “Time” e “Paris Match”.

“Há em suas fotos um olhar terno, generoso, que busca incessantemente o diálogo. Sua composição nem sempre é óbvia, e sua luz é muito trabalhada, o que denota um amplo conhecimento do ofício”, comenta ele. “O que me espanta é sua atitude de nunca ter batalhado pela publicação ou exibição de suas fotografias. Seria muito rigorosa com ela mesma?”

FILME

Essa é uma das questões em “Finding Vivian Maier”. Para a realização do filme, o ex-corretor de imóveis e atual guardião do espólio de Maier entrevistou cerca de 90 pessoas, entre remanescentes das famílias em que ela trabalhara como babá e gente que a conhecera na França durante a juventude, além de críticos e especialistas.

A partir dos depoimentos, descobrimos que, ao se aposentar, Maier estocou seus pertences em vários guarda-móveis da cidade. Com o passar dos anos, parou de pagar o aluguel, e suas coisas ficaram esquecidas. Foi assim que boa parte de seu material fotográfico foi parar nas mãos de leiloeiros.

Nos depósitos, prestes a serem jogados fora, Maloof encontrou chapéus, câmeras, ingressos, um par de sapatos vermelhos, cartas, itinerários de viagem, milhares de dólares em cheques do governo não descontados, um gravador, uma infinidade de recortes de jornais diligentemente organizados em pastas –boa parte deles sobre crimes ocorridos na cidade.

Maloof conta que Vivian nunca casou, não teve filhos nem tinha amigos próximos. Revelava seus rolos de filmes num banheiro que tinha na casa dos seus patrões. No documentário, ela é lembrada como uma mulher “intransigente, mas brincalhona, infinitamente curiosa ainda que reservada e, algumas vezes, cruel”. Vestia-se de “maneira antiga, costumava mentir sobre seu local de nascimento, e nas lojas de material fotográfico apresentava-se sempre com um nome diferente”. Um conhecido recorda ter lhe perguntado do que vivia. “Sou uma espécie de espiã”, foi a resposta.

Em 1958, fez uma viagem de quase três meses pelas Américas Central e do Sul, passando por Bogotá, Quito, Santiago, Montevidéu, Buenos Aires, São Paulo, Rio e pela Amazônia. Maloof diz que há uma profusão de imagens destas andanças, mas que ainda estão sendo escaneadas e avaliadas. Em 1959, perambulou ainda por Europa, Oriente Médio e Ásia.

Em recente artigo publicado no blog da revista “The New Yorker”, a jornalista e roteirista Rose Lichter-Marck diz que Maier “desafia nossas ideias de como uma pessoa, um artista e, especialmente, uma mulher deveria ser” –ainda mais se pensarmos nos Estados Unidos dos anos 1950, principal cenário das andanças da fotógrafa. Para Lichter-Marck, ao contrário do que o documentário sugere, ao buscar motivações psicológicas e de trauma para a trajetória da fotógrafa, a impressão é de que Maier “era alguém bastante livre, que gostava de estar à margem, e que viveu a vida que quis viver”.

Uma possível chave para sua obra talvez esteja em seus autorretratos, tirados em frente a vitrines, espelhos, vidros de carro. E sobretudo naqueles numerosos cliques em que Vivian registra a própria sombra. Num verso de “Folhas de Relva”, Walt Whitman se pergunta: “Será que alguém, quando eu morrer e sumir, escreverá a minha história?/ Como se alguém pudesse saber alguma coisa”.

Em 2008, Vivian escorregou e bateu a cabeça num pedaço de gelo, no centro de Chicago. Acabou não conseguindo se recuperar da queda e morreu em 2009, numa casa de repouso, aos 83 anos.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/171145-uma-vida-revelada.shtml

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Alguém que só existe nas coisas que viu

GEOFF DYER

De tempos em tempos, acontece de descobrimos que um escritor que permaneceu inédito em vida morreu deixando uma verdadeira uma obra-prima. “Uma Confraria de Tolos”, de John Kennedy Toole, é um exemplo disso –e de como o termo “obra-prima” é empregado quase como uma compensação para o atraso lamentável. No mundo da fotografia, essa história se repete em variadas versões. Há fotógrafos que acumulam um conjunto de obras e depois desaparecem. Às vezes, eles chegam a desfrutar de alguma fama e notoriedade (E.O. Hoppé, Ida Kar) antes de sucumbirem a uma obscuridade da qual só emergem postumamente.

Há aqueles que alcançaram reconhecimento em círculos fotográficos (William Gedney) e, em seguida, desapareceram até do radar de seus pares. Ocasionalmente, o trabalho é descoberto a tempo de o fotógrafo colher reconhecimento tardio. Se Lartigue foi o grande exemplo disso, então Miroslav Tichý ilustra uma síndrome mais estranha, pela qual a descoberta vem tão tarde que a ovação parece póstuma, mesmo se o artista ainda está vivo. E há outros, como E.J. Bellocq, de quem quase nada se sabia até depois de sua morte.

Vivian Maier representa um caso extremo de descoberta póstuma: aquele de alguém que existe unicamente nas coisas que viu. Maier não só era totalmente desconhecida no mundo da fotografia como ninguém parecia nem sequer saber que ela tirava fotos. Embora isso pareça inglório, talvez até cruel –um sintoma ou efeito colateral do fato de que ela nunca se casou nem teve filhos e, aparentemente, não tinha amigos próximos–, também diz algo sobre o potencial insondável de todo ser humano. Como escreve Wislawa Szymborska, ao mencionar Homero em seu poema “Census”: “Ninguém sabe o que ele faz em seu tempo livre”.

Isso nos chama a atenção para uma remota possibilidade, ou melhor, para duas versões similares de um fato possível. Primeiro, que uma das pessoas que Maier retratou na rua possa ter sido, como ela, um fotógrafo reservado, perseguindo o mesmo hobby com igual obsessão. Segundo, que, se procurarmos com afinco, poderemos encontrar Maier em imagens registradas na rua por algum dos famosos fotógrafos de cuja obra, por vezes, a dela se aproxima.

As várias cenas retratadas por Maier que trazem à lembrança o trabalho de Lisette Model, Helen Levitt (tanto em preto e branco quanto em cores), Diane Arbus, André Kertész e Walker Evans, entre outros, levantam questões sobre quanto ela conhecia a história desses fotógrafos ou, de forma mais genérica, a história do meio.

Será que ela tirava certas fotos porque, conscientemente ou não, elas se assemelhavam a uma ou outra imagem que vira em exposições ou em revistas? Ou seria apenas coincidência (essa “ciência à espera de ser descoberta”, como observa um dos personagens de Don DeLillo em “Libra”)? Talvez, também, seja propício inverter a questão e perguntar: será que reagimos tão prontamente a suas fotos porque conhecemos o trabalho de Model e outros e identificamos seus fantasmas na obra de Maier?

De qualquer maneira, há que manter certo distanciamento crítico. Passado o inevitável alarido, destinado a atrair toda a atenção que uma descoberta como a de Vivian Maier merece, é necessário que não se exagere o valor da obra a fim de lhe conferir a qualidade de milagre. Maier contribui de forma importante ao cânone da fotografia de rua; algumas de suas imagens são extraordinárias. Mas, deixando de lado a qualidade, o atraso da descoberta da produção de Maier significa que ela não desempenhou um papel na forma como vemos o mundo como fez o trabalho de Diane Arbus (mesmo se Maier parece ter abordado temas arbusianos antes até de Arbus).

Ela se conforma como eco visual, uma série de ecos que servem adequadamente ao propósito de questionar os modos como, em fotografia –mais do que em qualquer outro meio– identidade e estilo se estabelecem e se definem.

Um aspecto da obra de Maier se relaciona, de forma particularmente reveladora, ao seu estilo e à sua condição. Muitos de seus retratos de mulheres mostram personagens confinadas pela história –sua indumentária é a expressão disso– entre os papéis estritamente limitados dos anos 1950 e as liberdades frequentemente frustradas da década de 1960 em diante.

Maier ganhava a vida como a típica personagem da ficção vitoriana, a babá (ou governanta): uma estranha cujo acesso privilegiado à vida doméstica não permite desenvolver outro dom que não o da observação. No caso de Maier, é como se uma sensibilidade finamente moldada e nitidamente produzida por tais circunstâncias, expressadas à perfeição por suas roupas, o chapéu desabado e o casaco de sempre, ganhasse a liberdade de espreitar, discreta, as ruas de Chicago e Nova York.

É inevitável se comover com a atração que pareciam exercer sobre ela as senhoras de idade, representações proféticas de seu próprio destino: mulheres solitárias, de aparência excêntrica, envoltas em sobretudos, abrigando o segredo de uma vida inteira, intuído pela capacidade da câmera de, por um instante, perscrutá-lo.

Nota Esta é uma versão adaptada do prefácio de “Vivian Maier: Uma Fotógrafa de Rua” (Autêntica), traduzido por Eduardo Soares.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/171144-alguem-que-so-existe-nas-coisas-que-viu.shtml

 

 

 

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