Situação das instituições de memória no país

Reproduzo aqui matéria jornalística sobre as condições de conservação  e consulta do acervo da Biblioteca Nacional, uma das principais instituições de memória do país. A matéria foi veiculada nas colunas de Elio Gaspari, publicadas no Jornal Folha de São Paulo e outros jornais dos dias 02 e 09/09/2012:

A privataria arruina a Biblioteca Nacional

Elio Gaspari

 A BN é uma instituição secular que precisa de trato, cadeia de fast-books é outra coisa

Biblioteca, como diz o nome, é um lugar onde se guardam livros catalogados, acessíveis ao público.

No caso da Biblioteca Nacional, um transeunte que entra no prédio para sapear o catálogo precisa deixar até os cadernos na portaria. Caneta não entra, só lápis preto.

Se alguém for à página da BN na internet, terá à mão um catálogo de 576 mil obras, apesar de o acervo ser de pelo menos 2 milhões.

Mais, nas palavras do seu Relatório de Gestão: “Para evitar sobrecarga (da rede elétrica), não é permitido aos leitores utilizar carregadores para equipamentos como computadores, gravadores e assemelhados”.

Neste ano, em duas ocasiões, vazamentos do sistema de ar refrigerado inundaram áreas em vários andares, formando poças com até 10 centímetros de profundidade.

Há estantes que dão choque, sua fachada centenária solta pedaços e tapumes protegem os pedestres.

Funcionários da instituição fizeram uma manifestação na sua escadaria celebrando “o aniversário das baratas que infestam o prédio, com destaque para seu ‘berçário’, no quinto andar; das pragas que gostam muito de papel; brocas, traças e cupins” bem como “dos ratos do primeiro andar”.

Nesse cenário de real ruína, ressurge a cantilena: faltam recursos. Coisa nenhuma. O governo da doutora Dilma e a administração do companheiro Galeno Amorim, atual diretor da BN, botam dinheiro da Viúva em coisas que nada têm a ver com a tarefa de guardar, catalogar e tornar acessíveis os livros.

Em 2011, o Orçamento deu à BN R$ 30,1 milhões para gastos sem relação com pessoal e encargos. De outras fontes públicas, para diversas finalidades, recebeu mais R$ 63,4 milhões.

A digitalização dos sacrossantos Anais da BN parou em 1997, mas ela gastou alguns milhões em coedições, no patrocínio de traduções (inclusive para o croata) e na manutenção de um Circuito Nacional de Feiras do Livro. Colocou R$ 16,7 milhões num programa de compra e distribuição de livros populares, ao preço máximo de R$ 10 para distribuí-los pelo país afora. (Quem achou que por R$ 10 compram-se também estoques de livros encalhados ganha uma passagem de ida e volta a Paris.)

A criação de um polo de irradiação editorial pode ser uma boa ideia, mas essa não é a atribuição da Casa. Mercado de livros é coisa privada, biblioteca é coisa pública. Se ela não tivesse ratos no primeiro andar, baratas em todos, estantes que dão choque e um catálogo eletrônico mixuruca, poderia entrar no que quisesse, até mesmo na exploração do pré-sal.

Se Galeno Amorim pode revolucionar o mundo editorial brasileiro, a doutora Dilma deveria criar o Programa do Livro Companheiro, o Prolico. Nomeando-o para lá, deixaria a Biblioteca Nacional para quem pudesse cuidar dela.

Fonte: Coluna de Elio Gaspari, Folha de São Paulo, 02/09/2012

Essa matéria foi complementado na coluna de ontem:

AVISO AMIGO

O repórter Rafael Gomide teve acesso ao relatório de 28 páginas sobre as condições de segurança da Biblioteca Nacional.

Nele listam-se casos de hidrantes bloqueados, escadas obstruídas, portas de escape magneticamente fechadas e gambiarras no sistema elétrico.

A Biblioteca Nacional fica perto do Museu de Arte Moderna, onde, em 1978, um incêndio provocou o maior desastre cultural da história do país.

O fogo levou 90% do acervo, inclusive uma retrospectiva do artista uruguaio Joaquín Torres Garcia, quase toda de madeira. À época a direção do museu disse que ele era seguro, pois o eletricista “não deixava fios desencapados”.

A Biblioteca Nacional informa que investiu R$ 1,2 milhão num Sistema de Detecção de Alarme. Em 2011 os doutores gastaram cerca de R$ 1 milhão na organização de exposições e eventos.

Coluna de Elio Gaspari, Folha de São Paulo, 09/09/2012

Esta matéria é para reflexão de todos os que utilizam arquivos no país. Se uma das principais instutições de guarda de documentos históricos apresenta tal nível de descaso e inversão de prioridades, deixo para cada um inferir a situação das demais instituições de memória.

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Arquivado em Grupo de Estudos de Geografia Histórica

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